Português é uma língua linda, maravilhosa, versátil, maleável. Já diria Suassuna, o inglês do copo de vidro - glass of glass - não chega aos pés do idioma que cristalizou a saudade, esse sentimento humano universal de carinho pela falta que temos de alguém. Esse livro, tão bem escrito por Venâncio, é uma aula sobre o desabrochar e desenvolver da última flor do Lácio.
O latim chegou na foz do Tejo e por lá tomou gosto na boca do povo (com a exceção, claro, da terra dos euskaras, até hoje fieis). Com a queda dos césares do ocidente e a internalização em si dos povos conquistados, cada povo passa a desenvolver suas próprias versões linguísticas do latim; e na região bem a noroeste da península, uma das poucas não conquistadas pelos árabes: a Portugália, que abrangia o Condado de Portucale e o Reino da Galiza, ambos vassalos do Reino de Leão.
Naquela região de fronteiras meramente imaginárias, lentamente foi ocorrendo a supressão do L e do N nos encontros intervocálicos. Luna virou Lua. Avolu, avô. Populu, povo. Contenutu, conteúdo. E assim por diante, em centenas de vocábulos. LL e NN, então, não existe mais entre nós de forma alguma; seus herdeiros? LH e NH. Assim surge a primeira distinção do latim para o galego, centrado na supressão mediante a palatalização e nasalização dos sons. Mas... Galego? Não era português?
Sim! Galego. Que é galego? Nós, brasileiros, mal e mal sabemos de que se trata a língua galega; mais é utilizado como um adjetivo para designar pessoas brancas e loiras, às vezes até como sinônimo de alemão ou de gringo. Tem eles língua própria? Sim. Lembra do Reino da Galiza? Voltemos para a história.
Galiza e Condado Portucale eram vassalos do Reino de Leão, envolvido em lutas contra os árabes no período da Reconquista. Mas, também, envolvidos em escaramuças e politicagens entre si. Afonso Henrique, então conde de Portucale, rebeliou-se e invadiu a região da Galiza, reclamando o título de imperador da Hispânia, o mesmo título de seu primo e de fato rei de Leão, Afonso VII. Após a captura de membros importantes da corte de Leão em uma batalha, e também face às peleias com o Reino de Navarra à leste e mouros ao sul, firmaram os primos tratado de paz e reconheceram-se mutuamente cada um rei independente de sua região. Estava criada a dinastia Afonsina e o Reino de Portugal em 1143. E a Galiza? Manteve-se com o reino de Leão.
E com a fundação do Reino de Portugal começou, também, a língua portuguesa, certo? Não, errado. Até 1400, não existia nada que diferenciasse a língua falada entre Galiza e Portugal; era tudo galego. A diferenciação vai, aos poucos, se assinalando com o fim da dinastia Afonsina, ligada com os nobres do norte e a Galiza, e o início da dinastia de Avis, centrada em Lisboa e que, em 1430, então começa a intitular sua língua não mais de galego, mas de português. Qual sua diferença do galego? Até então, as diferenças linguísticas eram mínimas; as políticas, máximas.
Iniciou-se um forte repúdio aos galegos, reputando-os como incultos, incapazes. E, para mantê-los longes, se inicia um processo de desgaleguização do português. O primeiro processo é a adoção do i em diversas palavras, que colocarei aqui em latim, galego e português, nesta ordem: (i) tela, tea, teia; (ii) arena, area, areia; (iii) catena, cadea, cadeia; (iv) frenu, freo, freio; (v) plenu, cheo, cheio, e por assim vai...
E falando em desgaleguização, lembra do N abandonado pelo galego? Uma criação puramente portuguesa vem a partir dessa tentativa de afastamento do galego e uma espécie de reaproximação ao latim: o nosso ditongo ão, tão abundante. Verano, em latim, virou verao em galego; adicionar o N em verao, agora, seria impossível; mas ele acabou aparecendo como uma sinalização sobra as vogais. Surgiu nosso til, que de fato parece um pequeniníssimo N esmagado, ~, e assim se criou verão, singular, e verãos, plural. Ou seriam verões? Pois bem, a a grande dúvida de como escrever, se é verams, verãos, verões, só a partir de 1911 é que vai ser resolvido com um acordo ortográfico. Inclusive, o termo acórdão, que designa uma decisão conjunta de desembargadores, vem dessa dúvida: deveria ser acordam os desembargadores, como sinal de que eles entraram em um acordo sobre a decisão; porém, a dúvida ortográfica se fez valer e o acórdão prevaleceu. Estranho, não? virou até palavra própria.
A Dinastia de Avis e a nobreza, cada vez mais obstinados a se afastar da língua dos incultos, passam a adotar vários processos linguísticos castelhanos. Faz sentido; afinal, além de vizinhos, as universidades, as imprensas, os livros e os padres de grande relevância eram, em sua maioria, espanhois. Ler em castelhano, língua que de fato é uma das mais próximas do latim, O espanhol passou a virar um modelo, e termos portugueses foram remodelados para trazer de volta o L e o N abandonados no galego: dooroso virou doloroso; fiiz virou feliz; lumioso virou luminoso; romão, romano; sãar, sanar; paadar, paladar, e assim por diante. E é por isso que hoje nós temos mais de um termo em voga com sentidos iguais ou muito parecidos: gear e gelar, mágoa e mácula, paço e palácio, expoente e exponente, frear e frenar, limiar e liminar, e assim vai. Por um lado colorir, colorido, coloração, incolor, colorante; por outro, cor, corar, corado, corante, descorado. E há uma beleza nessa adaptabilidade.
Hoje, o português falado em Portugal, na Galiza e no Brasil é compreensível um ao outro; somos trilíngues naturais. Porém, é inegável que já estamos num processo de afastamento irreversível. O novo acordo ortográfico de 1990 de nada serviu e, de certa forma, há uma virtude nessa história. O português não é caxias, não é submisso; é uma língua que se transforma na boca de cada falante, diante da sua realidade. Como afirma o autor:
E vendo bem, existe uma leitura positiva dos dados. Eles revelam, no indivíduo português, um lado transigente, integrador, cosmopolita. Não: em questão de língua, o português nunca se fez esquisito. E essa virtude transmitiu-a a ele, depois, a brasileiros e outros falantes.
Por fim, a obra se encerra trazendo os embates atuais sobre o galego e o português, bem como o atual momento de cada língua e seus possíveis futuros. Recomendo o livro a qualquer um que se interesse por línguas e por história, esse livro nos ensina muito.