Os sete loucos -

    Roberto Arlt

    Iluminuras
    2020
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-13: 9788573216295
    Português Brasileiro

    Poucas vezes a literatura indagou, de forma tão radical, o fascínio que o crime exerce sobre os sujeitos como possibilidade de redenção social e existencial. Os sete loucos e Os lança-chamas, romances centrais da obra literária de Roberto Arlt, levam até as últimas consequências essa indagação. Uma galeria espectral de personagens, cujas vidas se afundam na penúria econômica, na miséria moral e nos porões do delito, desfila por estas páginas, que, implacáveis, evitam a denúncia social, a compaixão e o didatismo moralizante. O roubo, o assassinato, a delação, a prostituição, a fraude, a perversão do desejo oferecem-se como as únicas saídas vitais para essas personagens, que, em um compromisso brutal com a verdade, assumem o delito como condição de possibilidade da existência. Erdosain e a coleção de figuras excêntricas que o acompanha ― Barsut, o Astrólogo, Ergueta, O Rufião Melancólico, a Coxa, O Homem que viu a Parteira ― não são simples máquinas delituosas, pelo contrário, cientes da situação em que se encontram, mergulham numa introspecção buscando o conhecimento de si mesmos e, sobretudo, a compreensão de um mundo que não cessa de mostrar o cerne arbitrário das regras que o sustentam. Uma lucidez inexorável que, por momentos, beira a crueldade, permeia os diálogos, as confissões, os monólogos ou as fantasias dessas personagens que resistem a qualquer gesto comiserativo. Esse conjunto de raros e excluídos transita pela cartografia exasperada de uma Buenos Aires complexa e febril que, no final dos anos 20, exibe sem pudor o reverso monstruoso das utopias modernas. O contraste domina nessa cena urbana, que, de maneira caótica, justapõe a pobreza das zonas periféricas, o glamour dos bairros nobres, a desolação das áreas fabris e a convulsão das ruas do centro crivadas de inovações tecnológicas que distorcem a promessa futurista do progresso. Crispada e contraditória, a cidade arltiana transforma-se em um laboratório de transgressão para esses desajustados, que não se detêm ante nada na hora de imaginar utopias de mudança social que se fundam na intriga e no crime e que, na sua manifestação extrema, chegam a roçar o delírio. O traço anarquizante dessas ficções não se limita à configuração das personagens e à organização da trama, desloca-se também para um trabalho transgressivo com a língua, que subverte os modos cultos e corretos das tradições literárias dos letrados. A escrita de Arlt inscreve na própria língua a violência com que os fluxos tumultuosos e pouco inteligíveis da cidade moderna atraem e expulsam os sujeitos. Uma forma eficaz e, por isso, rotundamente atual, de evidenciar, como o próprio Arlt dizia, que entre os ruídos de um edifício social que desmorona inevitavelmente, não é possível pensar em bordados. Ana Cecilia Olmos

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    Js Ferreira07/08/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    SImplesmente insólito e magistral

    Os Sete Loucos foi escrito em 1929, fazendo parte de uma duologia. E é um livro sui generis. De um autor sui generis. Talvez o chamem de "Borges do subúrbio", não pelo estilo, que é inteiramente diferente do seu par aclamado, mas pela importância (merecidamente) adquirida através das décadas seguintes. Acompanhamos a história de Erdosain, o protagonista desse insólito romance, que, num mesmo dia, é acusado de roubo pela empresa onde trabalha (A Açucareira), devendo restituir o grande valor, é expulso por conhecidos, descobre que é corno (e libera a esposa, numa cena pesada mas de certa conciliação) e conhece um personagem fascinante e tirano: o Astrólogo, sem falar no tapa que recebe de um amigo de posses, Barsuit, que será sequestrado e terá papel financeiro no que será relatado a seguir. O Astrólogo tem planos loucos: pretende instaurar, na Argentina, uma verdadeira ditadura socialista. Seus planos já estão prontos e seus homens de confiança, instruídos, mas faltam recursos financeiros para se pôr tudo em prática. O rufião (um cafetão) é uma das suas maiores esperanças - e é o rufião que empresta (ou dá) os seiscentos pesos para Erdosain quitar o seu roubo junto à empresa. Diz que não sentirá falta do dinheiro porque "tem três mulheres para sustentá-lo" (logo, prostitutas). A partir de então, acompanhamos a saga de um protagonista moído e derrotado, por onde quer que passe, que trava longos e pontuais monólogos consigo mesmo, como um espectador da própria miséria (um dos monólogos nos remonta a uma mistura de Hamlet e Raskólnikov), e de como esse homem ocupa seu vazio interior (ou sua tristeza) com entusiasmo pelas ideias insanas e totalitárias do Astrólogo, que pretende extermínios em massa (e em 1929, ou seja, anos e anos antes do mundo descobrir as câmaras de gás nazistas!), controle pela religião, com uma espécie de holograma (alguém vai relembrar do famigerado Projeto Blue Beam?), bem como uma rede de prostíbulos, para garantir a renda. Romance altamente recomendável, prosa muito boa!

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