Fabio Weintraub - Quadro de Força
Editora Patuá - 112 Páginas - Projeto gráfico e diagramação de Luyse Costa - Lançamento: 2019 Fabio Weintraub retrata os urgentes desequilíbrios sociais do nosso tempo e confere uma voz para grandes parcelas da nossa população que têm o status de invisíveis, talvez porque ninguém se interesse realmente em enxergá-las, "perdedores" que insistem em sobreviver na paisagem urbana, ignorados por todos. Seja a partir do martírio de uma travesti no SUS para conseguir um corpo impossível, descrito em Sete poemas trans, ou por meio da dor de uma mãe (ou pai) ao perder o filho assassinado devido à violência policial em O rosto, essas pessoas se transformam em personagens-vítimas no cotidiano das nossas grandes e injustas cidades. Se a inspiração dos temas é brutal, o estilo tem como base uma técnica refinada na qual o ritmo dos versos livres se associa com a escolha cuidadosa da linguagem e rimas. É importante não cair na armadilha simplista de classificar os poemas de Quadro de Força simplesmente como panfletários ou "sociais", eles são dotados de um caráter marginal e carregados de erotismo, me fazendo lembrar, de alguma forma, o mais maldito dos autores malditos, Jean Genet (1910-1986), na sua coragem de conferir um estado de "santidade" aos personagens desumanizados. Cada poema de Fabio Weintraub tem a vocação da dramaturgia e sempre carrega nos seus versos uma história que pode deixar o leitor perplexo com a explosão de violência, como no assustador A canção do legista (à medida que avança / o estado de decomposição / é preciso abrir com cuidado / para que a liberação de gases / não resulte em explosões / espalhando as vísceras // de natureza moral / o impulso que o leva / a ouvir os que já não falam / tendo contudo tanto a dizer // às vezes desiste / larga o serviço pelo meio // depois do vigésimo tiro / prosseguir é inútil // destroçado / o corpo já não conta / história alguma) Em Desproporção do sangue acompanhamos a descrição de um procedimento de tortura (a informação extraída a frio / como azeite extravirgem // dos lábios prensados / pende o fio da confissão // quando o voltímetro dobra a descarga / trincam-se os molares posteriores // chamuscada a mecha / junto da têmpora // sempre maior / a quantidade de sangue / que a de excrementos // o escrivão faz hora extra / as faxineiras também), o desconforto é compensado quando se revela a beleza da poesia. Nos três exemplos reproduzidos abaixo (Caneta, O rosto e Prece), toda a força da obra desconcertante de Fabio Weintraub. CANETA quem segura a caneta entra na linha de tiro por mais rápido que se mova está sempre sob a mira quem escreve vai atado à roleta, sobre o disco quem segura o tubo excita o membro cheio mas entupido de tinta quente e vencida O ROSTO teu filho se acidentou trocou tiro com a polícia resistiu à prisão conheço meu filho se a viatura vinha atrás por que os tiros no peito? se foi logo socorrido por que perdeu tanto sangue? contestei a perícia agora corro perigo tatuei neste braço o rosto do meu filho embaixo escrevi "herói" olho o rosto rodo dia PRECE rugas e calva ohos fechados coça o saco como quem reza na plataforma do metrô tergal da calça impecável na boca do túnel recebe o vento no rosto coça como quem ora ou somente ajeita o membro acomoda-o à direita com um sorriso nos lábios virgem ou viúvo pensa na pequena morte ou na grande sobretudo coça o saco com um sorriso discreto em feitio de oração Sobre o autor: Fabio Weintraub nasceu em 24 de agosto de 1967, na cidade de São Paulo. Psicólogo, doutor em Letras pela USP, é poeta, editor e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da Universidade de São Carlos (UFSCar). Há mais de vinte anos atua no mercado editorial, tendo publicado autores como Donizete Galvão, Hilda Hilst, Ilo Krugli, Moacyr Scliar e Roberto Piva, entre outros. Tem poemas publicados em Cuba, nos Estados Unidos, no México, na Espanha e em Portugal.
