Rumor de anjos foi lançado pela Vozes em 1973. Nesta ediçao, o livro foi ampliado pelo próprio autor incluindo a introdução àquela edição e os capítulos 5, 6, 7, 8 e 9. A temática permaneceu a mesma: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural. Numa linguagem cheia de humor, sobretudo na parte nova o autor diz que a concordância sobre a suposta morte do sobrenatural (mais difundida há vinte anos atrás do que agora) fala bastante do homem moderno, mas pouco do sobrenatural. Começando com uma análise das forças sociais que conduziram à moderna crise religiosa, mostra como a perspectiva sociológica pode ser utilizada para questionar os pressupostos do pensamento moderno com o mesmo vigor com que ele esteve habituado a questionar os pressupostos das diversas religiões.
Rumor de Anjos - A Sociedade Moderna e a Redescoberta do Sobrenatural
Peter Berger
Edições (2)
Ver maisEste livro do Berger é o menos sociológico dentre os poucos que eu já li. Aqui, desde o início ele se se propõe a fornecer uma "orientação", se podemos chamar assim, para teólogos lidarem com problemas trazidos pela ciência moderna e seu método em geral e, mais especificamente, pela própria sociologia. Há uma humildade sincera, pois o próprio Berger reconhece que não tem competência suficiente para avançar além do que lhe é permitido nessa incursão feita de boa-fé para fazer com que os modernos e contemporâneos passem a ver a religião de outra forma, mas sem deixar de ter em mente a sua natureza sacra e o seu impacto que sempre causou fascínio ao homem de todas as épocas. Os ensaios apresentados no livro buscam explicar o fênomeno da dessacralização e, ao mesmo tempo, apontar para o uso das ferramentas que temos nas ciências modernas, como a sociologia e a antropologia, em prol de uma releitura da religião que recupere o seu devido lugar. A sugestão de que a teologia comece a partir de elementos antropológicos marca um ponto importante na elaboração da perspectiva bergeriana. Segundo Berger, há elementos e traços presentes na condição humana que apontam para a existência de algo que nos escapa quando nos limitamos a olhar para o mero mundo físico e material. Os argumentos listados por ele (ordem, jogo, condenação e humor) seriam alguns que poderiam ser usados com essa finalidade, não se tratando de um rol exaustivo, mas apenas explicativo que poderia facilmente ser ampliado. Berger também reconhece que há muito de heterodoxo na sua proposta, especialmente no capítulo em que trata da necessidade de confronto com as tradições, o que, de certa forma, se bem entendido, não difere muito do estabelecimento de uma relação dialética. Essa dinâmica que Berger chama de "fé indutiva", conceituando-a como aquela que se desenvolve a partir de perguntas nascidas da experiência humana, em contraposição à "fé dedutiva", que fornece respostas a partir de pressuposições religiosas e dogmáticas, a meu ver, não parece diferir muito do pouco que conheço da teologia de Santo Tomás de Aquino -- embora um desses autores seja visto como guardião da ortodoxia e o outro como um risco de porta aberta para o liberalismo. De todo modo, a leitura é excelente. Berger é ótimo no que se propõe a fazer e até agora eu só tive experiências boas com as leituras de suas obras.
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