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    O Mal Negro -

    Nina Berberova

    Rocco
    1991
    86 páginas
    2h 52m
    ISBN-10: 8532500803
    Português Brasileiro
    3.6
    5 avaliações
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    Favoritos0Desejados9Avaliaram5

    Evgueni, um emigrado russo que perdeu a mulher há nove anos num bombardeio na França, descobre que os brincos de diamante dela, penhorados num monte-de-piedade como preciosos, nada mais valem. Uma das pedras traz em si uma terrível deformidade: o mal negro. Partindo dessa metáfora, Nina Berberova constrói um delicado e implacável romance. Em sua busca de refúgio real ou inventado - Drujin, o amigo de Chicago -, o protagonista encontra Alia, a moça que divide com ele um quarto em Paris e que lhe permite, com isso, juntar dinheiro para embarcar para Nova York, e Liudmila, a filha de seu patrão nova-iorquino, um amor infeliz e impossível. Nenhuma das duas consegue devolver a Evgueni, pedra em que o mal se alastra, o gosto pela vida e a vontade de criar raízes, renegando a errância tão comum aos exilados eslavos.

    Resenhas (2)Ver mais
    Marcelo Gabriel Delfino picture
    Marcelo Gabriel Delfino30/05/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Nina Berberova ainda é uma escritora desconhecida em nosso país. Deve continuar assim, como tudo dá a entender. Quem, hoje, tem interesse por algo que não seja o livro da moda ou os clássicos de sempre? Nada contra os clássicos, claro, mas há tanto para se conhecer, tanto para se procurar dentro da literatura, que eu fico até ansioso pensando em quanto não estou perdendo porque não foi traduzido ou porque não interessa mais a nossos editores — sem contar que eles mesmos tem poucos conhecimentos hoje em dia. Seja como for, o que fica dos três livros dessa autora que encontrei é a tremenda capacidade de ser profunda e sucinta ao mesmo tempo. Livros muito curtos, quase contos, mas que tem todo o desenvolvimento dos personagens que se alcança em longos romances. Isso é incrível. E o aprendizado, porque a autora consegue desvendar e descrever com exatidão aspectos importantes da psicologia; seus personagens são variados e complexos, inteligentes e não abusam dos bons sentimentos do leitor. Embora exista enorme compaixão pelas tragédias dos personagens, nunca seus livros se transformam em melodramas fáceis. Nesse livro vemos o personagem principal passar ao largo de oportunidades de relacionamento. Ele é uma boa pessoa, consegue despertar o que há de melhor nos outros, inclusive ajuda as pessoas como pode. Mas, como se fosse amputado de uma parte de sua personalidade, não pode amar ninguém. E isso é completamente surpreendente, porque ele vive um romance muito bonito com uma mulher que estava, por sua vez, também ferida pela vida. Nós torcemos para que as coisas aconteçam da melhor maneira, porque é uma daqueles romances que vemos nos filmes, livros, novelas e costumam dar certo. No entanto, ele se desculpa, diz que não pode amar mais ninguém depois da morte terrível da mulher que amava. E as coisas ficam assim. Só ao fim do livro que vamos conhecer essa parte importante e decisiva do seu passado. Ele era feliz e amava. Mas a violência da guerra destruiu tudo. Num segundo, uma bomba e não havia mais nada. Desde então, vivo, mas sem se deixar tocar por mais nada da vida. Ele nota as pessoas, percebe que elas desejam amar, mas não consegue. O que é o mal negro? Talvez seja uma depressão, a perda do gosto pela vida. E acredito que seja isso mesmo, porque ainda não havia um diagnóstico muito fechado sobre isso quando o livro foi escrito. É natural que algumas pessoas tivessem uma suspeita de como isso poderia acontecer, mas a medicina ainda não havia pesquisado o tema o suficiente para dizer o que de fato acontecia. Embora isso pareça tirar a força da descrição, não acho que isso aconteça. A depressão é algo grave e que gera muita incompreensão nas pessoas próximas, porque é uma mudança radical de comportamento sem que exista uma explicação imediata. Nós todos conhecemos o que é a tristeza e sabemos lidar com pessoas que estão tristes, mas não sabemos lidar com pessoas deprimidas, que não conseguem sentir alegria ou prazer na vida. Isso é quase inconcebível, mesmo que seja debatido na TV, nas redes sociais, etc. Parece que a pessoa se torna teimosa, que não quer mais compartilhar com as outras momentos de alegria. Todos sabem que há algo errado, mas a mera palavra “depressão” não é capaz de dar a exata dimensão do que se está vivendo. A comida não dá prazer algum e, pior, ficar com o estômago pesado é um sofrimento, porque gera desconforto e qualquer coisa é capaz de levar a pessoa deprimida ao desespero. Dormir é um desafio diário, pois há medo de que não se acorde, medo de que o adormecer seja, na verdade, a morte chegando. Caminhar, fazer qualquer exercício pode ser penoso, por gerar desgaste e mal-estar. Conversar também não é solução, porque é preciso prestar atenção para responder aos outros, isso numa mente que está acelerada a ponto de não conseguir se concentrar. Enfim, é como se qualquer possibilidade de prazer estivesse vedada e só existissem dores, desconfortos, ansiedade e medo. Estar ao lado das pessoas, participar de eventos, tomando o cuidado de estar calado, quieto, para não provocar nos outros questionamentos e necessidade de responder, torcendo para que aquilo acabe e se possa voltar ao “conforto” da solidão — que, assim que se alcança, provoca ansiedade e um sofrimento quase insuportável. Não há paz, portanto. E isso o livro mostra com bastante clareza. O personagem não está feliz onde está, deseja se mudar na esperança de que exista algum alívio em algum lugar. Mas, numa nova cidade, com novas pessoas e o sofrimento continua, de modo que ele começa a se sentir culpado pelas coisas acontecerem daquela maneira. Ele é pego pela armadilha mais cruel de todas quando se perde o sentido da vida: todas as coisas passam a ter o mesmo valor. Não há diferença entre estar numa roda de amigos ou entre completos estranhos, porque não é possível criar vínculos. Uma cidade familiar tem o mesmo valor que um lugar desconhecido e inóspito, afinal, tudo é desagradável. Viktor Frankl formulou o conceito de tríade trágica, que pode nos ajudar aqui. Há três estágios que acontecem e terminam com a morte da pessoa: sofrimento, culpa, morte. A pessoa não entende o sofrimento, não acha explicação para uma situação tão difícil e as mudanças que acontecem em sua maneira de lidar com a vida. Depois, como isso tende a se aprofundar, ela experimenta a culpa, começa a notar que todas as tentativas de escapar do sofrimento terminam da mesma maneira e passa a se responsabilizar. Em seguida, a perda completa do sentido da vida e da vontade de viver. Mas essa não é uma condição estranha a nossa vida. Frankl ensina que isso é, na verdade, a condição humana e que precisamos dar sentido a nossa vida o tempo todo (ou nos lembrarmos frequentemente do que nos dá sentido). Isso faz com que o sofrimento ganhe outra dimensão, porque deixa de ser algo imposto pelo mundo ou provocado por nós mesmos, mas um elemento que compõe a vida, que é inevitável e que pode nos tornar melhores se soubermos aprender com ele e olhar com amor para o sofrimento alheio. Mas, normalmente, fazemos o movimento contrário, negando o sofrimento do outro, pedindo que ele se compadeça de nossa dor e lhe voltando as costas na primeira oportunidade. No livro, esse trajeto também acontece. Ele até nota que as pessoas sofrem, mas não consegue sentir nada por elas. Ele tornou sua dor a medida do mundo e, como não a localiza em mais ninguém, se fechou para os outros. Se tornou autorreferente. Esse é o primeiro passo para que a tríade trágica nos leve ao desespero e à morte. Olhar o mundo com seus valores, negando a dúvida, a possibilidade de estar errado, o sofrimento do próximo. Num certo sentido, lembrei de “O morro dos ventos uivantes”, mas o intuito da autora é bem diferente. A quem culpar pela guerra, pela doença, por um acidente? Heatcliff teve o coração ressecado pela dor de lhe tirarem o amor de sua vida. Mas, em seu caso, era fácil identificar os culpados. Ele não conseguia mais amar e escolheu o caminho de agir defensivamente contra todos. Aqui, não há culpados identificáveis, o que aumenta ainda mais a dor do personagem. Não poder culpar ninguém pelas tragédias que nos acontecem as tornam ainda mais insuportáveis. Ele sabe que precisa viver; essa necessidade da vida o deixa exasperado, mas lhe falta o coração. Para além do tema em si, uma palavra sobre a maneira como a autora montou seu livro. Se ela desse a explicação no início, o tomaríamos por qualquer outra coisa. Pareceria uma desculpa, soberba, medo da vida, etc. Não vemos todos os dias uma infinidade de pessoas dizendo que precisamos nos atirar na vida? Só que as pessoas tem histórias e quem diz isso não tem a menor ideia do que cada um viveu. A autora cria empatia no leitor através do princípio de romance, para só no fim, depois que estamos chateados e descrentes sobre o desfecho da história, contar o que lhe aconteceu e o impede de dar sequência ao relacionamento. São detalhes assim que diferenciam os grandes escritores daqueles que não tem talento — nem se esforçam. “Há anos, tudo me é indiferente. As pessoas não gostam disso, deixam de me dar atenção. Os espelhos não me refletem mais, o eco não me responde. Bem que eu gostaria de ficam bom! Mas não posso acabar com o mal negro, não posso ressuscitar. Milhões de anos se passaram depois da morte dela, e eu continuo sem saber para onde vou, giro em círculos, vivo em lugares onde cheguei não sei como. Eu próprio sou um espelho que não reflete mais nada.” (p. 77).

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    3.6 / 5
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    Nina Nikolayevna Berberova profile picture

    Nina Nikolayevna Berberova

    Nina Nikolayevna Berberova era uma escritora nascida no Império Russo que narrava as vidas dos exilados russos em Paris em seus contos e romances.

    6 Livros
    2 Seguidores

    Nina Nikolayevna Berberova