repito coisas que não lembro [2019]
Débora Gil Pantaleão (PB, 1989-)
Escaleras, 2019, 64 p.
.
Tive a honra de contribuir com um posfácio para este novo livro-projeto literário-fotográfico da Débora Gil e da Bruna Dias. A título de comentário, deixo um gostinho das palavras que escrevi com muito gosto para a obra:
.
É preciso ler, verdadeiramente ler, cada momento de repito coisas que não lembro, com menos altivez, e mais atento. Parar diante das fotografias de Bruna Dias, absorver a citação bíblica, as palavras de Hilst, de Poe, de Evaristo, de Peixoto. E reabsorvê-las, agora transformadas pelo corpo textual, quando retornam amarfanhadas e mais presas às palavras de Débora Gil do que quando entraram no livro, palimpsestos de si mesmas. [...] Brincando com esse conceito, a narrativa de Pantaleão faz da fotografia palimpsesto da prosa que é, por sua vez, palimpsesto das poesias, que são, também, palimpsestos do corpo que é, em última instância, palimpsesto de palavras. Cada uma dessas esferas traduz gestos políticos que nos marcam, aprisionam, libertamsobretudo (mas nunca apenas) quando o corpo negrofeminino desvia dos caminhos acachapantes da heteronormatividade.
.
Convém, talvez, neste último esforço antes da leitora ou leitor fechar o livro, seguir o exemplo de Alejandra Pizarnik e pousar no umbral do olhar tanto o você-que-é quanto o você-que-foi. É isso, afinal, o que faz a voz protagonista de repito coisas que não lembro: presa à sintaxe de um quarto que é sempre agora/memória, sempre eu/outros, inventa sua própria cosmologia para escapar ao mito fundador dos desesperos. Nessa revolução telúrica, carrega objetos afetos violências mulheres insultos desejos que mordem o corpo da alma o mais puro gesto de poesia.