Esse breve vagalume Algumas pessoas nasceram para o amor, outras para desafiá-lo. Algumas flutuam e transbordam sem limites; outras represam. De uma forma ou de outra, o amor nos incita a pular de seu topo e esse mergulho é uma questão de arbítrio, assim como pousar, para permanecer ou simplesmente partir. Tudo é um risco, pois o pouso sucede o voo e precede a queda, ou seja, o amor e sua insurgência é êxtase no auge de seus delírios e dor em seu letal abandono. Os poemas desse Pouso, segundo livro de Ágnes Souza, flertam e criam um diálogo epistolar com a ausência, em um mundo fora de órbita, que nos convida a imergir no emaranhado do fluxo de consciência da persona que ama. Nos faz perder a noção de profundidade desse sentimento que passeia pelos cômodos, pela memória, pelo corpo, pela cidade, pelo cotidiano; que se derrama pelo livro, nos deixa vulneráveis e nos afeta com a força, serena e intensa, de sua correnteza. Como disse a autora, amar é criar intimidade com a queda e se eu fosse você, eu não teria medo do pouso nem de dar com a cabeça no amor. Luna Vitrolira
Pouso -
Ágnes Souza
Leitura 18 de 2021 Pouso [2020] Ágnes Souza (PE, 1992-), Moinhos, 2014, 320 p. Pousar é antes de tudo um movimento de contágio entre o ar e a rede invisível que nos mantém de pé. Assim que coloquei os pés neste Pouso, da pernambucana Ágnes Souza, minha primeira impressão foi estar diante de poemas muito bonitos, bem escritos e executados, mas difíceis de comentar. Após vencer a primeira metade do livro, no entanto, o que parecia demasiado íntimo-amoroso, ganhou gravidade e sentidos múltiplos, abertos a muito mais que a experiência da escritora e sua performance poética. Ao lado de um coloquialismo bem empregado, de formas sem estrofes e títulos que endossam o caráter confessional de cada criação, há sempre um elemento desestruturador, uma conclusão inesperada, uma quebra irresistível da dita normalidade que nos remete vezes sem conta ao título da coletânea, o momento mais crítico de todos os voos. Dedicado às mulheres lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis, o livro canta o feminino irrequieto que não se comporta como pólo oposto de qualquer forma de masculinidadeum feminino completo em sua justa desejável insubmissa fragmentação. Deixo abaixo a poeta falar, maneira também de encerrar este mês em que celebramos a incessante luta pelos direitos das mulheres (infelizmente com * nas palavras para o post não ser bloqueado). ORAÇÃO À SANTA na minha cidade é assim se é magra, é seca se é gorda, é feia se é feia, é uma derrota, não dá nem pra comer se é crente, é safada enrustida se é casada, certamente trai o marido se trai o marido, é p*ta se é solteira, é p*ta se é sapatão, é mal comida se não responde o boa noite, é p*ta se responde o boa noite, é p*ta se larga o marido abusivo, é p*ta se é p*ta, não presta nem pra ser p*ta sempre me rege me guarde me governe e me ilumine preu ser p*ta #editoramoinhos #poesia #leiamulheres #agnessouza #pousa #literaturabrasileira #poemas #poesiapernambucana
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