A saída do primeiro tempo - O romance do futebol é o segundo livro do escritor e jornalista Renato Pompeu, campineiro, 37 anos. É um romance sobre o futebol e pessoas, e se passa nas ruas, nos bares, nas escolas, nas casas, em todos os lugares onde transita "o espectro da Ponte Preta", - uma preta velha e gorda, a única capaz de alterar a "imensa cerimônia, prevista em pormenor do nascimento até a morte", que é a vida das personagens deste livro. O "espectro" é a personagem central deste romance fascinante, sutilmente irônico e de uma lucidez precisa e contundente, que fala do esporte nacional e da forma como ele altera comportamentos, transforma as pessoas, muda a realidade. É essa personagem central que inspira um intelectual a escrever uma tese acadêmica: "O futebol - Crítica da Economia Política". Inclui o romance "Quatro olhos", já registrado.
A Saída do Primeiro Tempo -
Renato Pompeu
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[Resenha publicada pela primeira vez, na internet, em 26 de fevereiro de 1999.] O jornalista Renato Pompeu escreveu na década de 70 esse romance "sobre" futebol, e "sobre" a sua importância na vida das pessoas. Como descreverei, trata-se de uma brincadeira envolvente e bem articulada, cujo destaque é um certo descompromisso, uma ausência de padronização estrutural que torna o livro rico para a análise. Um leitor exigente em excesso pode reclamar de sua construção, alegando faltarem cortes no texto final para torná-lo conciso, literariamente econômico. De fato, parece às vezes que certas descrições de paisagens naturais ou humanas seriam pretensamente líricas e não se encaixariam à narrativa. Mas mesmo em tais passagens não se escapa do estilo sempre inteligente de Pompeu. Enfim: desfruta-se da linguagem refinada do autor de cabo a rabo no romance. Na primeira parte do volume, "O espectro", vemos personagens mais ou menos comuns da cidade de Campinas serem atingidos por uma força imprecisa, em geral benévola, a que se chama sempre de "espectro da Ponte Preta". Essas cenas são carregadas de uma humanidade equilibrada, que contrasta, compatibilizando-as, a leveza de um idealismo e a crueza de um erotismo sempre marcante. O último personagem a surgir é o intelectual que procura um tema para sua tese. Tocado pelo espectro da Ponte Preta, não dá outra: decide-se pelo futebol. A segunda parte é a transcrição de sua dissertação já pronta: "O Futebol — crítica de economia política". Texto aberto, fértil, permite digressões geniais, como a tentativa de desenvolver uma Teoria do Cabelo ou uma Teoria da Cerveja. Essas intervenções anti-acadêmicas são exatamente isso: anti-acadêmicas. Desde o aparecimento do intelectual na história faz-se uma crítica firme e muito humorada do universo catedrático, cuja produção se revelaria bem menos interessante do que seria uma Teoria do Futebol, da Mulher ou do Tabaco — comentário este, diga-se, feito diretamente na tese, no momento das digressões. Sem ser banal, a monografia desenvolvida acaba por demonstrar com simplicidade a paixão que se nutre pelo futebol. Com a linguagem formal das dissertações especulativas, o autor injeta seu ponto de vista humorado e paródico. Fala, por exemplo, do Princípio da Prova da Superioridade Futebolística. É uma brincadeira. Mas se encontra, na sua análise, um motor bastante aceitável da loucura pelo futebol. Há ainda o Princípio da Eliminação da Dúvida, ou Princípio de Eliminação dos Fatores Extrafutebolísticos. Outra brincadeira. Mas, segundo o autor, daí decorre o Segundo Tempo. Sempre brincadeira. E daí decorre o Jogo de Volta, do que se deduz ainda a idéia do Terceiro Time — que, fora da partida, não pode ser ele o melhor, o que leva, afinal, ao Campeonato. Apesar das escapadas, o intelectual demonstra como é que o mundo é determinado pelo futebol. Trata-se, na verdade, de uma demonstração do que se viu episodicamente na primeira parte, em que o espectro da Ponte Preta alterava a vida e o sonho das pessoas — naquela parte em que aflora um bairrismo campineiro-pontepretano ingênuo e simpático, um bairrismo que leva o leitor não campineiro a afeiçoar-se, não por Campinas, mas pela cidade onde está, na medida em que essa seja mais ou menos influenciada pelo futebol. Na terceira parte, "Reflexos nos cromos de um carro", o intelectual mimeografa sua tese e a distribui aos cotidianos personagens do romance. Uns gostam, outros não, outros ainda guardam para usar o verso das folhas como rascunho. Nesta curta parte, brilhante mesmo é o desfecho: de repente espectro de Ponte reaparece o Preta, que se funde "com o torcedor", o que o faz coração do intelectual, coração de defender apaixonadamente sua tese em prol do futebol. Vinte anos após a publicação, é uma pena que esse romance profundamente criativo não tenha podido garantir uma reputação mais disseminada. Espera-se que essa situação injusta seja retificada com o tempo.
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