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    Memórias de Marta -

    Júlia Lopes de Almeida, Júlia Lopes de Almeida

    Delirium
    2020
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788569423188
    Português Brasileiro
    3.8
    98 avaliações
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    Memórias de Marta é o primeiro romance — alguns se referem à obra como ensaio de romance — de Júlia Lopes de Almeida, publicado em 1888, inicialmente em folhetim e posteriormente compilado em livro. Como o próprio título entrega, o livro, narrado em primeira pessoa, conta a história de Marta. A maior parte da trama desenvolve-se dentro de um cortiço, tendo como cenário principal a Capital do Império à época, o Rio de Janeiro. Quando criança, a protagonista perde o pai, e, com isso, a mãe, também chamada Marta, é forçada a trabalhar como engomadeira, para sustentá-las. O dinheiro recebido com esse serviço é pouco e obriga ambas a viverem em um cortiço. Marta sente a aversão pelo lugar, que é úmido, fétido, perto de um matadouro. Ela almeja sair do cortiço, pelo asco, pela ojeriza e para fugir da humilhação da pobreza, e isso será possível a partir do momento em que entra para a escola e conhece a sua professora, D. Aninha. O relato, que relembra sua sofrida trajetória e a busca por melhores condições de vida para ela e para sua mãe, é mais que uma procura por felicidade, carinho, realização de sonhos improváveis e aceitação de uma existência, às vezes tediosa, sem amor, riqueza ou luxo; é também a valorização da sua posição de independência e da capacidade feminina de superar desafios.

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    Suemi Bacci picture
    Suemi Bacci18/11/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Memórias de Marta - Júlia Lopes de Almeida

    A história de passa na cidade do Rio de Janeiro, durante o século XIX. Após o falecimento de seu pai, Marta e a mãe, com parcos recursos financeiros, se mudam para um cortiço, o qual é caracterizado pela insalubridade e pobreza. A mãe de Marta – “Marta mãe” – trabalha como engomadeira para sustentar a ambas, o que significa debruçar-se por horas a fio sobre as roupas das mulheres da elite e deixá-las impecáveis para o uso futuro. Marta, ainda criança, começa a se frustrar consigo mesma e com suas condições de vida. Ela julga a si mesma feia e desprovida de qualquer graça, incapaz de despertar o interesse sincero de alguém, impressões que nem mesmo os vestidos obtidos com tanto esforço por sua mãe são capazes de aplacar. À medida em que a personagem cresce e se vê inserida em meio à miséria, penúria, escassez e desesperança, surge a oportunidade de dedicar-se aos estudos, não só para a sua própria educação, como também para fazer do ensino a sua profissão. D. Aninha, mestre e benfeitora, nutre um carinho especial pela aluna e a auxilia em todos os aspectos possíveis. É graças a ela que Marta se torna professora assistente, o que lhe permite, ainda que com certo sacrifício, providenciar uma moradia melhor, sempre na companhia da mãe, cuja saúde e vitalidade se esvaem com notória rapidez. É na companhia de D. Aninha que Marta vivencia os eventos marcantes de sua juventude: a primeira festa, a primeira viagem, o primeiro amor... paralelamente, é na companhia da mãe que Marta se vê acorrentada à sua triste realidade, presente e futura, tanto pelo fato de ser mulher quanto pelas restrições acarretadas pela desigualdade social. Todos os eventos ficam marcados na memória da protagonista, que os relata após já ter alcançado a fase adulta. Nossas Martas encaram a fome, a precariedade, a morte e a miséria tão de perto quanto nenhuma pessoa deveria encarar. Ao redor, a situação não é promissora: seus conhecidos vivenciam outras mazelas, tão esmorecedoras quanto as suas. Porém, apesar da dura trajetória, mãe e filha encontram certa dose de conforto no amor que sentem uma pela outra. O final talvez possa ser considerado feliz, a depender do olhar o leitor, consideradas as circunstâncias apresentadas; todavia, esse não era o intuito da autora. A mensagem é clara: visa incentivar o estudo como ferramenta de liberdade e independência para as mulheres, sobretudo como forma de escapar às desgraças que Marta, representando muitas de nós, conhece ainda criança, seja por meio de sua própria história, seja pela história daqueles que a cercam. Independente de qual for a expectativa ao iniciar a leitura, saiba que ela será superada. A escrita, o enredo e a descrição dos sentimentos da personagem proporcionam uma imersão em suas memórias – mais do que isso, em sua alma e em seu coração –, tornando impossível não se identificar, em algum momento, com as experiências e as angústias vivenciadas pela jovem. A escolha pela obra de Júlia Lopes de Almeida foi pensada para resgatar o trabalho da escritora brasileira, injustamente relegada ao esquecimento, e para inaugurar o selo Inspirium, pertencente à Delirium Editora, voltado exclusivamente a publicar mulheres. A edição é ilustrada e conta com textos de apoio para auxiliar na compreensão sobre os fatos narrados e a trajetória da autora. Alguns termos empregados à época da publicação original são considerados racistas e foram substituídos pelos vocábulos adequados, seguidos por notas de rodapé explicativas. É, sem dúvidas, um livro que vale a pena adquirir. “Com que orgulho eu penso na desvelada solicitude que tem em geral a mulher brasileira para o filho amado! Não o repudia nunca, trabalha ou morre por ele; coração cheio de amor, perdoemos-lhe os erros da educação que lhe transmite, e abençoemo-la pelo que ama e pelo que padece.” (pp. 110-111)

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    Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida

    Contista, romancista, cronista, teatróloga, palestrante e abolicionista brasileira, uma das idealizadoras da ABL (ainda que seu nome tenha sido "apagado"). Com grande e importante produção literária, participou ativamente de sociedades femininas de sua época.

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    Rio de Janeiro, Brasil

    Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida