Contra o ódio [2016]
Carolin Emcke (Alemanha, 1967-)
Âyiné, 2020, 196 p. ð
O ódio é uma narrativa repetida vezes sem conta. Suas malhas são formadas por visões particularmente reducionistas da realidade fundamentadas, com frequência, em noções unívocas (e esquizofrênicas) como povo homogêneo, religião verdadeira, tradição original, família natural, cultura autêntica. Em Contra o ódio, Carolin Emcke explora manifestações desse sentimento na contemporaneidadesempre, claro, do ponto de vista de seu lugar no mundo (lésbica, jornalista, branca, alemã)e propõe, à guisa de alternativa, um elogio ao impuro, uma cultura da dúvida esclarecida capaz de perceber que uma democracia não é a ditadura da maioria, mas uma ordem na qual tudo o que não é justo ou inclusivo o suficiente pode e deve ser reajustado, exigindo uma cultura do erro, uma cultura da discussão pública caracterizada não pelo desprezo recíproco, mas por uma curiosidade mútua. ð
Na construção de seu argumento, Emcke analisa episódios recentes de atuação do ódio como potência que transforma o diferente em invisível ou monstruoso, a exemplo do caso do ônibus de imigrantes cercado por uma turba de nacionalistas em Clausnitz ou do assassinato do afro-americano Eric Garner, em plena luz do dia, estrangulado pelo policial Daniel Pantaleo em julho de 2014 enquanto repetia I cant breathe (sim, exatamente). O ódio se nutre da deslegitimação do outro, da recusa, segundo Rancière, de considerar certas pessoas como seres políticos, [...] de ouvir os sons saindo de sua boca como discurso. O pulo do gato de Emcke, para além da identificação do racismo estrutural ou da intransigência do Estado Islâmico, por ex., se direciona à isenção, aos espectadores da injustiça, àqueles que, ao não intervir, possibilitam e ampliam o ódio como uma caixa de ressonância: não são eles próprios que odeiam, mas eles deixam que outros o façam. Eles são, talvez, apenas indiferentes ou estão acomodados. [...] Não querem ser incomodados por essas discussões indigestas. A verdade indigesta, aqui, é que há tanta maldade nestes quanto naqueles. E não há pior uso da vida do que ser indiferente.