A épica eletrônica de glauber - Um estudo sobre cinema e TV

    Regina Mota

    UFMG
    1998
    228 páginas
    7h 36m
    ISBN-10: 8570412622
    Português Brasileiro

    Esta tese tem como ponto de partida a imbricação cinema/televisão como fenômeno resultante do aprimoramento técnico gerador de linguagens que inovaram as duas mídias. O objeto analisado é a participação de Glauber Rocha no programa Abertura, que foi ao ar de fevereiro de 1979 a julho de 1980, na extinta TV Tupi. A captura direta e simultânea à difusão das câmeras de TV, antes da invenção do videoteipe, em 1956, imprimiu a noção de tempo real e procedimento "ao vivo" à televisão, o que pode ser identificado como sua principal característica. O cinema, por sua vez, utilizado como suporte para burlar o desafio do direito na televisão, apreende a possibilidade desse fazer "ao vivo". O surgimento de gravadores de som direto acoplados às câmeras leves em 16mm será responsável por um outro estilo de filmagem e de comportamento do realizador, que terá seu desenvolvimento na geração dos cinemas novos, na década de 60. Esses jovens cinemas experimentarão a câmera como um personagem que participa dos acontecimentos, construindo um evento no próprio ato de filmar. Já o espectador, diante dessas imagens desglamourizadas, se transforma em testemunha dos fatos registrados por câmeras ágeis, que não escondem os intervalos entre os planos, fazendo na filmagem a montagem. Glauber Rocha, reconhecido internacionalmente como um dos expoentes dos cinemas novos, particularmente do cinema novo brasileiro, experimenta o som direto em 68, em seu filme Câncer, montado apenas em 1974. Mas o procedimento de filmar diretamente, sem cortes, transformando a filmagem num evento em torno da câmera, será retomado pelo diretor em outros filmes e sobretudo em sua participação no Abertura, durante 10 meses, em 1979. A proposta do programa - fazer a metalinguagem do processo de abertura política - servia ao projeto ético do diretor: discutir, sugerir políticas para a cultura brasileira, especialmente para o cinema brasileiro. Ao levar para o vídeo sua experiência e sensibilidade cinematográficas, Glauber provoca uma reflexão sobre a própria televisão brasileira, que ainda vivia amordaçada pela ditadura. Rompe, assim, com os rígidos padrões de comportamento televisual, sugerindo novas formas de interação com o público.

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