Pelos olhos de uma musa
Por ser minha primeira vez lendo um livros de memórias, não sabia o que esperar. E agora, após termina-lo, me vi em um dilema sobre como dar uma nota à um livro de memórias. Sinto como se estivesse resumindo a história de vida da Pattie à algumas estrelas... Como poderia julgar, sendo que o livro foi escrito pela lente da perspectiva da Pattie Boyd sobre sua vida, e que passou por outra lente: a minha perspectiva. No final, tudo se resumirá a diferentes pontos de vista. O que é excelente, pois ao refletir sobre qual assunto (dentre os diversos que eu percebi) eu iria me aprofundar nessa resenha, fiquei entre dois temas. Mas não conseguia enxergar nenhuma ligação entre ambos. No fim das contas, eles eram relacionados quanto a ideia da perspectiva (ou seja, os pontos de vista). Para mim, ler um livro de memórias é como ver um filme através de várias lentes. Mas essa leitura me fez pensar como seria se enxergar através da letra de uma música inspirada em você. Como é ser a musa de dois músicos famosos? Esse livro conta sobre a história de vida da Pattie Boyd, partindo de sua infância, passando pelos dois casamentos que ela teve com dois músicos (o primeiro com o George Harrison e o outro com o Eric Clapton) e encerrando a obra com sua vida como fotógrafa após sua juventude. Se você tem curiosidade em saber sobre a vida das celebridades dos anos 60/70, esse livro com certeza vai te interessar. Pois a Pattie foi uma das modelos mais famosas de sua geração e foi inspiração para diversas músicas famosas, como "Something" dos Beatles e "Layla" do Eric Clapton. O próprio nome do livro, "Wonderful Tonight", demonstra isso, porque também é o nome de uma música do Eric Clapton que foi inspirada nela. Na maioria das vezes quando vemos as musas de obras consideradas clássicas ou muito influentes temos o impulso de endeusá-las também. Pattie fala sobre tudo isso em seu livro, e ler sua visão sobre ser modelo, ícone de moda, e talvez a maior musa do rock, me fez pensar sobre as diferentes perspectivas e como isso causa, inevitavelmente, uma certa superficialidade em tudo que é belo. "Layla", um dos maiores sucessos do Eric escrito para a Pattie, mostra isso. A beleza estava na romantização, no amor proibido (pois a Pattie já era casada) e na ideia da conquista. A paixão era inebriante, eufórica e bela mas a superficialidade ainda estava lá. Pattie conta que durante sua juventude, ela tentava ao máximo ser o reflexo dessa imagem idealizada, e que somente após anos de terapia e auto conhecimento que ela foi retomando sua identidade. O que quero mostrar aqui é que a idealização que vem de um ponto de vista, até mesmo nas coisas mais belas, causa uma certa superficialidade porque aquela ideia não é totalmente real. Quando estava lendo outras resenhas sobre essa obra, muitas pessoas diziam estar decepcionadas pois esperavam que a Pattie fosse uma pessoa mais profunda. Algumas até falaram que não entendiam porque ela foi a inspiração de tantas músicas incríveis para dois dos maiores guitarristas no auge dos anos 60/70. Acho que isso é um exemplo claro da idealização por parte das pessoas, que imaginam alguém pela lente de uma obra que já é idealizada. Não sei o que seria a profundidade esperada nesse caso. Os ideais dos hippies dos anos 60 falavam sobre juventude e liberdade (isso tirando uma grande parte que foram os movimentos das minorias). O uso de substâncias ilícitas começou a se popularizar, festivais de música eram feitos para demonstrar a mudança de ideais por parte dos jovens. A maioria das estrelas de Rock defendia esses valores. Os acontecimentos e assuntos desse livro são voltados para o que acontecia nos bastidores do Rock na época. Também acho que a idealização de algumas pessoas vem de dois lados: a ideia criada pelas letras das músicas e a admiração pelos músicos. Sobre as letras eu já comentei. Agora sobre a admiração, os fãs desses músicos, por gostarem muito de suas composições e contribuições para o rock, tendem a achá-los as pessoas mais incríveis que já pisaram na Terra. Não nego que tudo que eles construíram é extremamente relevante ainda hoje, mas isso não quer dizer que eles foram as pessoas mais profundas e sábias. Se fossem o rock da época não seria conhecido pela sua extravagância e seus vícios. Ou seja, talvez uma parte dessa "futilidade" que tanto dizem estar na Pattie, está nos excessos dos rockstars da época. Esse livro retrata diversos assuntos como: alcoolismo, relacionamento tóxico, as mudanças revolucionárias dos anos 60, os bastidores do auge do Rock, etc. Ainda assim, talvez seja um pouco nichado. Por isso, para quem tem interesse na vida da Pattie, nos seus casamentos, e o motivo de ela ser considerada uma das musas mais influentes do Rock é uma leitura que vale a pena.

