O escritor Harry Laus foi um homem de muitas vidas: viveu, conscienciosamente a carreira de militar, aposentando-se em 1964, foi renomado crítico de artes, conhecido no Brasil inteiro por sua intensa atividade jornalística que se estendeu por trinta anos, com coluna especializada no Rio, São Paulo e várias outras cidades. E também foi escritor. É nessa última atividade que deixa a marca de seus passos na terra. Atividade que, somada à de leitor, foi a verdadeira paixão da sua vida. Seus diários (depositados no Núcleo de Documentação e Pesquisa, UFSC) são testemunhas dessas duas constantes. Em 1988, publica na França (tradução de Claire Cayron) a antológica novela Les réveils de Zenon des Plaies; em 1989, o conto La première balle e uma seleção de contos intitulada Jandira. E, por último, em 1992, Claire Cayron traduz Les Jardins du Colonel, título francês do romance que o leitor brasileiro tem, agora, finalmente oportunidade de conhecer. Embora o belíssimo, e infelizmente já de há muito esgotado, Monólogo de uma Cachorra sem Preconceitos possa ser considerado como romance, o autor classificou-o como novela. Temos, então, com Os Papéis do Coronel, o seu primeiro e único romance, pois Harry Laus faleceu em 1992. Para a tradutora francesa, as eminentes qualidades do texto de Harry Laus são a emoção atingida pela economia de meios a serviço de uma narratividade a mais eficaz possível. Acrescento que, em todos os seus textos, observa-se uma grande contensão, resultado de intenso trabalho. Desse trabalho, são testemunhas os diversos estados do presente livro, todas as versões que antecederam a versão final mostrando Harry Laus como um escritor muito consciente, muito meticuloso, muito refletido. Escrever era uma trabalho ao qual se atirava com sua habitual seriedade e um frenético desejo de atingir ao que visava como ideal: o resumo, o sumo, a essência, nas palavras do Coronel desse relato. Processo sofrido e solitário. Único romance de Harry Laus, o texto coloca seriamente a questão do escrever: como se formam as imagens, a tessitura do texto, a questão das influências e o processo da escrita, deixando-nos, como testamento, esse testemunho de seu processo literário e mais, de suas profundas angústias e questionamentos, o seu caminho interior, a sua ascese. (Zahidé L. Muzart)

