Lê-se rapidamente A Origem do Mundo, não apenas porque é uma história curta e muito bem escrita, mas pelo fato de o chileno Jorge Edwards envolver profundamente o leitor numa investigação gerada a partir da desconfiança e ciúmes conjugais. Que resultou numa peça literária merecedora de elogios de Mario Vargas Llosa, autor do posfácio da obra. Para ele, a história criada por Edwards é divertida, inesperada e muito bem construída. De fato, é isso mesmo, uma leitura que vale a pena, além da oportunidade de se conhecer um autor sul-americano pouco difundido no Brasil.
O título atribuído ao livro é o mesmo de um famoso quadro de 1866, pintado pelo francês Gustave Courbet, mencionado inúmeras vezes por Edwards. Em vez de quadro (que é reproduzido no final do livro em branco e preto) temos a (descrição da) fotografia de uma mulher posando de modo praticamente idêntico ao da modelo da pintura. A foto foi encontrada no meio de tantas outras fotos de mulheres no apartamento parisiense de um dos personagens principais do romance, o boêmio Felipe Diaz. Todas as fotografadas teriam passado por sua cama: isso vai ser a origem dos tormentos de outro personagem, esse que encontrou as fotos...
Como muitos chilenos dos tempos da sangrenta ditadura de Augusto Pinochet, Diaz, por motivos políticos, refugiou-se em Paris, cidade de artistas, intelectuais, boêmios, refugiados. O mesmo fizeram alguns de seus amigos, como o médico Patrício Illanes e sua mulher Silvia. Apesar da amizade, Patricio Illanez e Felipe Dias têm algumas diferenças: o médico já passou dos setenta e Diaz tem pouco mais de cinqüenta, mesma idade de Silvia. E Diaz é culto, sedutor, mulherengo, bebe muito etc., enquanto Illanez (ou Patito, como lhe chama a mulher) é um marido sério, defensor da vida saudável, um senhor certinho etc. Mas que vai se revelar um homem extremamente ciumento e contraditório quando começa a duvidar da fidelidade da mulher.
Ele supõe, passa a acreditar que Silvia tenha sido amante do sedutor Diaz e que naquela foto que imita a mesma pose da modelo do quadro é ela que está ali a exibir despudoradamente seu sexo (nem no quadro nem na foto se mostra o rosto da modelo), a origem de tudo, a origem do mundo, segundo Coubert. A foto agora será a origem da desconfiança e do sofrimento de Patricio Illanez. Inicia então uma investigação quase policial para apurar os fatos, eliminar suas dúvidas, sossegá-lo ou acabar de vez com o casamento que já dura cerca de trinta anos. Acompanhamos tudo com bastante interesse, e é somente no último capítulo, narrado por Silvia, que temos o desfecho dessa envolvente história de Jorge Edwards. Ela conta tudo e então algo acontece...
Lido entre 10 e 13/09/2020.