Soda Cáustica Soda
Em janeiro de 2017, escrevi sobre o livro “Fragmentos de um exílio voluntário” do escritor Lúcio Autran, este trecho: “Autran nos apresenta uma obra em que se observa a conciliação entre expressividade e artesanato verbal. Suas angústias e inquietações ganham vida e se manifestam construindo uma poética presa a realidade, e dirigida ao intelecto onde a experiência humana de nosso tempo nefasto é posta em evidência. O resultado é que temos contato com uma obra de lastro existencialista a constatar também como as relações humanas caminham rumo ao aniquilamento”. Reencontro o autor agora na publicação de “Soda Cáustica Soda”, e com redobrada admiração observo que cada vez mais ele afina o seu tino crítico e uma sensibilidade, que não deve calar. Ótimo. Essa nova obra se constitui em alentada reunião de textos que apresenta ao leitor poemas belíssimos como “Horas”, “O aprendiz de insônias”, “Três cabrestos”, “Pandora 2018”, “Século XXI”, “Nove degraus e um pássaro numa tarde de verão” dentre tantos outros. É flagrante o desalento diante do mundo contemporâneo. E não poderia ser diferente. Nossos dias são mesmo difíceis, dilacerantes, angustiantes. Há desencanto, mágoa, ironia, muita dor e uma espécie de pesadelo que não acaba. Em “A procissão dos enfermos no cais do desterro” (poema em prosa), há um lirismo pungente que nos toca profundamente, porque nos perguntamos: o que será afinal do humano? Trecho: “6 – Desespero Um olho se entretece a outro olho que a um outro olho procura, na trama da esperança de saber se um dia haverá um homem, um só, que tenha fugido do drama de ser o próprio inferno, traga notícias de um vento que enfunará velas, e revelará os mistérios de uma fuga que a poucos prometerá. Essa tessitura de olhares cruzados, trai o ódio por onde transpira a impossível esperança. Ninguém nunca partiu ou partirá das sombras, essas velas rotas, os corpos mortos nos mastros, balançam em silêncio a memória das fugas em desatino: o destino de abismos do porto impossível. No vértice vazio do voo em espiral, ícaros transtornados traçaram o vão do vácuo, hybris que se abriu agitando os braços e pernas num voo demente, a cera derreteu o futuro e se espalhou ao sol na explosão de se entregarem à sorte da morte no solo arenoso. Alguns poucos ainda buscam por bússolas tontas sussurrando o vento norte, mas não há vento nem norte, não há esperança de fuga, só uma porta ainda os separa do tempo dos homens, a mesma porta que os levará para fora do tempo e dos homens. Ombro a ombro, suores em febre misturam-se afluentes, roçam as peles em pânico no rumor da força da multidão amalgamada na fúria de quem descobriu um insepulto fim, sem escatologias. Uma morte sem cadáveres da qual eles morrem todos os dias.” E no entanto, lembremos também, ou olhemos para outros ângulos dessa sensação de fim de mundo. Sempre há e haverá reconstrução. Veja-se à propósito, todos os poemas da última parte da obra “Seis danças desconexas para a sexta década”, dedicados ao filho do autor (que esperança maior poderia haver?). É nessas frestas de reconstrução eterna da vida, que a linguagem poética busca luz no fim do túnel. “Soda Cáustica Soda” é título corrosivo sem dúvida. É o é nas 16 partes em que está dividido e que levam títulos como demônios, cicuta, escatologias, exílios, dezembro entre escombros dentre outros, e um detalhe importante. Existem, entremeados entre àqueles poemas, por assim dizer, cáusticos, outras partes agrupando poemas a que o autor deu o título de “Contrapontos”. Não é por outra razão que o poeta André Caramuru Aubert, que assina o prefácio da obra, afirmou que ressoa em suas páginas, “um profundo lirismo, mesmo quando à primeira vista se insinua épica ou corrosiva. No poeta Lúcio Autran, o ‘bardo épico’, o ‘poeta amargo’ e o ‘eu lírico’ se misturam e se confundem em poemas que muitas vezes parecem pedir, por um lado, uma leitura íntima, silenciosa, num sofá aquecido por uma taça de vinho e pela luz amarelada de um abajur noturno, e por outro lado, exigem, sem fazer concessões, uma declamação feroz, no centro de um palco, voz alta com timbre de tenor, com o rosto crispado e braços abertos” . Verdade; o leitor se depara com essa grande habilidade do autor em versejar com profundidade, tanto em poema curtos e concisos, quanto nos longos, tendentes a um épico. Há inclusive poemas em prosa e aqueles outros em que surgem sugestões visuais na página impressa. Há ainda outro aspecto crucial nesta mais nova obra. No ambiente em que vivemos no mundo, e sobretudo no Brasil (atualmente abatido pela discórdia imbecilizante e pela intolerância histérica – e não se deixe de ler o poema “A besta qualificada”), Lúcio Autran empreende experiência radical de engajamento estético-político, cujo risco dá consistência e fibra a uma poesia que se emancipou da estreiteza ideológica e poética e soube tirar proveito artístico do exame de seus limites e de sua ação. Lembramos ainda, a título de reforço, que a poesia é política. Pode até não tratar disso diretamente, mas é um ato engajado. E política, nos versos, não significa tratar somente de fatos e desgovernos, mas de ressignificar símbolos. E entenda-se que ressignificar símbolos não espelha unicamente o protesto puro e simples. Exprime o perscrutar o por que isso ou aquilo acontece em nossas vidas. Decorre disto seguramente, as saídas que podem iluminar. A começar pela publicação de um livro como este. Livro: “Soda Cáustica Soda”, Poesia de Lucio Autran – Editora Patuá, São Paulo - SP, 2019, 176 p. - ISBN: 978-85-8297-863-4 Link para compra e pronta entrega: https://www.editorapatua.com.br/produto/100673/soda-caustica-soda-de-lucio-autran

