Em A Sociedade Contra o Social, o filósofo Renato Janine Ribeiro define seu compromisso ético convidando o leitor a rever alguns dos principais bordões da nacionalidade. Aqui estão Ayrton Senna, Fernando Collor, o real, as novelas de TV, Iracema e os políticos corruptos. Rememorados, mas nunca repetidos, eles são trazidos à consideração para que suas motivações profundas se mostrem e suas fragilidades se tornem mais patentes. À medida que a prosa fluente de Renato Janine Ribeiro vai retraçando nossas falhas e defeitos, vamos, de certo modo, nos descobrindo pela primeira vez.
A Sociedade Contra o Social - O alto custo da vida pública no Brasil
Renato Janine Ribeiro
Raízes da cultura política no Brasil
Se tem um livro que me fez refletir sobre a situação que vimos se iniciar no segundo semestre de 2016 no Brasil é esse. Em A sociedade contra o social, Renato Janine Ribeiro analisa, em uma série de ensaios, a cultura política brasileira, tentando extrair o que tem (e o que deveria ter) de ético nela, e o que ela nos fala sobre a nossa cultura de um modo geral. As análises foram feitas observando o cenário político da década de 1990, à luz da história do próprio país. A corrupção, tão noticiada hoje, já era tema recorrente naquela época, e a identidade da política com ela já era consenso popular. O que faltava, sob o ponto de vista do autor, era buscar as raízes dessa corrupção para fugir do senso comum de "o que é político é corrupto". Faltava, segundo ele, uma concepção antropológica da corrupção, uma investigação que nos indicasse o fundamento, e partir daí, a fuga. É válido destacar que compreender a corrupção por um viés antropológico não tira a gravidade nem elimina a culpa de quem corrompe o erário. Mas há algo em nossa mentalidade enquanto povo brasileiro, ou até mesmo em nosso sistema político, que propicie a corrupção? Será que nossa cultura oligárquica de privatização dos assuntos públicos não é a grande vilã da história? Esse tipo de privatização, de deixar que a política se torne coisa de "político profissional" parece trazer consigo um grande perigo. Daí constitui-se o que Janine Ribeiro chama de sociedade: detentores do poder político e econômico capazes de movimentar o país. Contrapondo-se ao que ele chama de social: políticas públicas que beneficie a nós, o povo. Ora, a política deveria ter finalidade de tratar e cuidar da coisa pública, ampliando essa esfera em prol do bem comum. Enquanto a coisa pública é privatizada, tornando-se assunto interno da dita sociedade, o que vemos é assuntos privados, que correspondem e beneficiam somente a quem tem o poder, operando contra o dito social. E não é o nosso atual medo? Um adendo: o viés da análise que o autor faz do livro é extremamente necessário, pois busca a raiz da cultura política do Brasil e do brasileiro. Uma grande questão, que não é explícita no texto, é que a pauta moral nas análises políticas da esquerda brasileira anda tendo primazia. Sem fazer juízo de valor sobre esse viés de análise, mas atentando para o fato que questionar-se sobre a realidade que produz significação a construção e atuação política vem virando tema secundário, quando não esquecido.
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