O romance é originalmente publicado em 1965, no entanto, no Brasil foi editado em 1968 e nunca mais reeditado. Robbe-Grillet havia visitado o país um ano antes para participar de algumas conferências, momento histórico este marcado pela presença constante nesse "debate aberto" de escritores afeitos às ideias do nouveau roman. Em 1969, também será editado pela 1ª e única vez, alguns escritos críticos-teóricos de Grillet intitulado "Por um novo romance".
Por que o apagamento, o esquecimento desses escritores no Brasil? Em alguma medida, isso pode ser explicado por este romance? De que fala o enredo de "Encontro em Hong-Kong"? Pode parecer uma pergunta simples, objetiva, mas não. Talvez, eu não saberia dizer sobre o que exatamente fala este romance de Robbe-Grillet. Ele fala, é claro, sobre o gênero romance, sobre estratégias narrativas, sobre ficcionalização, sobre verossimilhança (ou não), em suma, fala sobre metalinguagem. Embora isso já esteja assumido desde uma espécie de advertência que abre o livro, Robbe-Grillet ainda tece um enredo; confuso, sim, contraditório, ambíguo, aberto, insolúvel, sim, muito, mas o tece.
Quando Boris Tomachevski discorre acerca da temática das obras, o que para ele, se converte em unidade, chama atenção para a seguinte questão sobre algumas obras/leitores: "literatura que se interessa menos pela obra de arte do que pelos problemas de cultura geral e, sobretudo, pelos problemas sociais" (Tomachevski, p. 307)¹. Para esses leitores, mais preocupados com questões externas à literatura, mais afeitos a mensagens, moral, aquilo que é "importante", "relevante", Encontro em Hong-Kong não os tocará. Alain Robbe-Grilet está no segundo grupo, interessado em questões pertinentes apenas a arte, em sentido tautológico do termo, as obras são os que elas são e não o que elas significam, diria o próprio Grillet ou Albrecht Fabri²: "aquela que não tem outro conteúdo senão sua estrutura".
Para chegarmos na estrutura dessa ficcção, para ensaiarmos como aquela se organiza, é necessário ir ao truncado enredo: Um homem, um convidado, chega numa mansão para uma festa. Alguém morreu. Essa mansão esconde prostituição. O homem pode ser um traficante. Mais pessoas morreram. Há alguma investigação. Entre gringos e chineses, confusão: quem é quem? São estes alguns dos elementos que constroem o enredo. Porém, eles não são organizados de modo a torná-los mais claros, solúveis, encadeados. Eles se somam e se anulam, se invertem: tempo e espaço os confundem ainda mais. Se em algum momento estamos num espaço em determinado tempo, no parágrafo seguinte somos lançados para outro espaço no mesmo tempo, ou o inverso, ou outro tempo em outro espaço.
Entre o relato narrado no presente, as digressões do passado e intervenções do narrador mais diretos, mais opinativos, para além das écfrases, uma peça de teatro é representada no presente da diegese ainda que se confunda com o passado. São chaves de um mistério insolúvel.
O próprio narrador do romance que também confundimos a identidade põe sua narrativa em jogo, coloca dubiedade em suas descrições, em suas afirmações, provoca o leitor. Suas alternâncias entre a 3º e 1º pessoa do singular, alimentam mais essa dúvida: quem fala? Por que mente? Por que dúvida de si mesmo? Mesmo o estilo de Robbe-Grillet em diversos momentos do romance está muito mais interessado em mostrar do que em contar, as écfrases são constantes, a descrição minuciosa interrompe o fluxo narrativo. Descrições que são apenas descrição, são o que são, não precisam de função narrativa como autores da tradição clássica do romance clamariam.
Ainda refletindo com Tomachevski, dentro dessa visão mais tradicional do romance, todo elemento deve servir em favor da unidade da obra, ele nos diz: "O sistema de motivos que constituem a temática de uma obra deve apresentar uma unidade estética. (...) Se todas as partes da obra estiverem mal coordenadas, a obra dissolve-se. (...) Eis por que a introdução de todo motivo particular ou de cada conjunto de motivos deve ser justificativa (motivada)" (Tomachevski, 2013, p. 327). Entendendo aqui "motivo", como a unidade mínima (indecomponível) temática da obra, sempre extraída do tema principal, se todo motivo deve se concatenar com a unidade, o sistema de configuração dos motivos, o narrador de Robbe-Grillet zombará dessa ideia: "É provável que todas estas minúcias não tenham grande importância, tanto mais que as imagens desta visita já apareceram em relato anterior" (1968, p. 122).
Esse "narrador pouco escrupuloso" (Robbe-Grillet, 1968, p. 77) está jogando o tempo todo com o leitor, está jogando com a ficcionalização, com a narrativa. O conjunto de procedimentos dispostos e utilizados por Robbe-Grillet não servirá à unidade da obra enquanto tema, mas enquanto forma, retomo: a obra é o que ela é, ela não precisa dizer nada, ela fala sobre si mesmo, sobre o estatuto ficcional. Devemos ceder ao pacto e acreditar no narrador? Logo no início, ele já deixa claro: "Agora, então, tentarei contar esta noitada na casa de Lady Ava, ou, ao menos, precisar quais foram, para mim, os principais acontecimentos que a marcaram" (Robbe-Grillet, 1968, p. 21). Tentará... Será eficiente? Será verossímil?
O narrador é irônico, quando cruza tempos narrativos diferentes, chama atenção do leitor: "Se Manneret já foi assassinado, é evidente que esta cena se passa anteriormente" (Robbe-Grillet, 1968, p. 178). Será mesmo evidente? Manneret está mesmo morto? São descritas ao menos duas diferentes mortes de Manneret, atribuído mais de uma identidade, mais de um conjunto de motivos, porém, ao fim, continuamos sem muito saber... "Há algumas inverossimilhanças no que ficou dito; entretanto, tudo se passou inteiramente desta maneira" (Robbe-Grillet, 1968, p. 156).
O que ficou dito, construído, relatado, é menos relevante de como isso foi realizado, talvez, minha pergunta levantada no início deste breve ensaio, possa ser respondida por isso: Robbe-Grillet escreve para escritores; para quem estuda narrativa. Assim como seu cinema é experimental, bem distante do cinema narrativo clássico, sua literatura também o é. Seria essa a falta de interesse em Robbe-Grillet? Em parte, isso pode explicar... Mas e quanto a seu apagamento acadêmico? Não ousarei arriscar uma hipótese, o que ficou dito está dito.
¹ [[Todorov, Tzvetan - Teoria da literatura - Textos dos formalistas russos]]
² [[Campos, Haroldo - Da tradução como criação e como crítica]]