O SOM E A FÚRIA QUE NASCERAM DA ESCRITA DO MESTRE FAULKNER.
The Life of William Faulkner – The Past is Never Dead, 1897-1934” é o primeiro volume de uma biografia do autor publicada em 2020 e que foi escrita pelo biógrafo e professor de jornalismo americano Carl Edmund Rollyson, autor de mais de 40 livros, incluindo biografias de outras personalidades tais como Sylvia Plath e Marilyn Monroe, além de estudos sobre a cultura americana e crítica literária. “Ainda me lembro vividamente de, num inverno frio, passar dia após dia sentado na varanda enrolado num cobertor lendo O Som e a Fúria, de William Faulkner”. Quando me deparei com essa frase na autobiografia do 42º presidente dos Estados Unidos, William Jefferson “Bill” Clinton, eu fiquei maravilhada em pensar em um livro que fosse tão interessante, que faria um leitor tão voraz como ele, se refugiar em uma varanda fria, enrolado em um cobertor, apenas tendo como companhia os personagens dessa história. E desde que li “O Som e a Fúria”, eu me apaixonei perdidamente pela escrita de William Faulkner. Mas conhecer a vida do Faulkner foi uma experiência muito diferente do que eu imaginava. Sua infância já revelava um menino diferente na forma de olhar para a vida e para as pessoas ao seu redor, com uma percepção tão apurada, que a escrita parece fluir com uma naturalidade como se fosse um pequeno rio que se sente atraído para o mar, e é nele que encontra o seu destino. Assim era Faulkner: um escritor que se submeteu a sua escrita, e permitiu que ela o usasse da maneira como bem desejasse. “Faulkner gostava de conversar com a mãe de Wasson, embora ela só lesse romances leves. Ela o aconselhou a escrever histórias de amor que atraíssem mulheres que, afinal, constituíam a maioria dos leitores de livros. “Talvez sim”, respondeu Faulkner, “mas não escrevo para leitores. Escrevo para mim e porque preciso”. A Sra. Wasson (…) não tinha sido capaz de ler “O Pagamento do Soldado”: “Está muito além da minha cabeça, e o que li foi feio”. Faulkner sorriu e respondeu: “Eu nunca disse que era bonito e, de qualquer forma, também não poderia lê-lo agora. Então estamos quites”. Essa é uma passagem que descreve com exatidão sobre a escrita do Faulkner: uma escrita complexa, profunda, e que não veio mesmo para agradar a todos. E realmente não agradou, e eu até entendo algumas críticas que já vi por aqui no Skoob de pessoas que não se sentem atraídas pela forma como o autor escreve. Mas eu só não posso dizer que concordo, porque de fato o nível de genialidade da sua escrita é absurdo! Martim Vasques da Cunha, doutor em ética e filosofia política pela Universidade de São Paulo, e colaborador dos jornais “O Estado de São Paulo” e “Folha de São Paulo”, escreve no Prefácio de “Uma Fábula”, livro de William Faulkner publicado pela Editora Nova Fronteira: “Faulkner é sempre retratado como um escritor do desespero que, mesmo com seus tons dourados, típicos de uma região devastada por uma guerra civil, seria uma espécie de irmão gêmeo dos existencialistas Sartre e Camus (aliás, admiradores ardorosos dos seu trabalho). (...) Faulkner e Pascal têm muito em comum porque ambos praticaram o mesmo Cristianismo agonizante que moldaria também os espíritos de escritores como Kierkegaard, W.H. Auden, Miguel de Unamuno e Graham Greene. Essa expressão – Cristianismo agonizante – não é mero pleonasmo. A agonia é uma das características centrais da religião cristã; e o fato de que, junto com a incerteza, ela provoca uma perturbação na alma humana que será resolvida somente com uma verdadeira metanoia move também uma conversão individual que cria um mal-estar na nossa sociedade a atingir a essência de uma outra vida, diferente da econômica, psíquica ou sexual – enfim, uma vida secreta”. Nem preciso dizer mais nada, porque esse trecho simplifica tudo o que encontramos nos livros do Faulkner, e a sensação que fica é de que a leitura nos faz chegar até a essência de cada um dos seus personagens, nesse lugar escondido onde reside a pureza da alma, onde tudo vemos e tudo sabemos, e assim, passamos a compreender para além das suas emoções, para ver também as suas intenções. O nível de brilhantismo da concepção desses personagens é indescritível, e nessa biografia Carl se debruça muitas vezes em uma análise psicanalítica de cada um deles, especialmente porque existe uma beleza por trás de cada personagem criado por Faulkner: eles são frutos de pessoas reais, e por isso, podemos sentir dentro de cada um essa chama de vida que nos faz criar um laço até mesmo com o mais cruel deles. Os capítulos sobre “O Som e a Fúria” e sobre “Luz em Agosto”, que ainda são as únicas obras do autor que eu já li (e pretendo mudar isso em breve!), foram as partes mais gostosas dessa leitura, porque foram personagens que me emocionaram por tudo o que acabo de dizer sobre a forma como foram concebidos, e por isso mesmo, não há como não senti-los como se fossem reais. Porque cada história de vida de cada um deles, falou comigo. Além disso, no caso de “O Som e a Fúria”, Carl traz um subcapítulo para cada membro da família Compson e eu tenho que dizer: como foi delicioso rever cada um desses personagens incríveis que fizeram com que o Bill Clinton se isolasse em uma varanda para estar com eles em um dia frio de inverno! Foram 4 meses para terminar de ler essa biografia, mas não me arrependo nenhum pouco de ter degustado devagar cada parte. De ter lido sobre a infância de um garoto prodígio. De ter descoberto um jovem escritor que amou tão intensamente, que nem mesmo as convenções religiosas o separaram da mulher que ele amava e que estava destinada a ele (e que papel eles tiveram um na vida do outro!). De uma escrita ousada, que reconheceu primeiramente a grandiosidade de seus grandes mestres (Dostoiévski, James Joyce, Joseph Conrad), e só depois deixou que sua própria genialidade pudesse vir à tona. De um homem do Mississippi que tem grande devoção e respeito pela sua região, e que assim como o King (e eu!) ama uma história de índios e de um bom faroeste! De um homem excêntrico que gostava de se parecer com Charles Chaplin. De um escritor cuja escrita também foi usada para conceber os roteiros de filmes Hollywoodianos. De um grande sonhador que escreveu grandes histórias, onde em cada uma delas, um pouco de sua própria genética foi gravada. “Trinta e cinco anos depois, Faulkner falou na Universidade da Virgínia como se tivesse “Vision in Spring” em mente: “Não sei se . . . qualquer escritor poderia dizer como se identifica com seus personagens. Muitas vezes, o jovem escreverá sobre si mesmo simplesmente porque ele é o que ele conhece melhor. Que ele está usando a si mesmo como padrão de medida e, para simplificar as coisas, ele escreve sobre si mesmo como talvez suponha ser, talvez espere ser, ou talvez como se odeia por ser.” Confesso que apesar de ansiosa para ver a segunda parte da história, e poder ler mais sobre como foi o momento em que Faulkner escreveu “Absalão, Absalão!”, ainda preciso de um tempo para me recompor de tudo o que eu li, e de toda a genialidade de um homem muito além do seu tempo (e de todos os tempos!) chamado William Faulkner!
