A ficcionalização da ficção em “A filha de Mrs. Dalloway”
“Mrs. Dalloway” como sabemos, é um romance da escritora inglesa Virgínia Woolf (1882-1941). Publicado em 1925, a obra narra um único dia da vida da protagonista Clarissa Dalloway, uma dama de Westminster, esposa de um parlamentar conservador, que percorre as ruas de Londres dos anos vinte cuidando dos preparativos para uma festa que realizará no mesmo dia à noite. Essa simplicidade de enredo revela, por outro lado, uma técnica narrativa que subverte o que até então se conhecia como narrativa padrão. Lançando mão do stream of consciousness (fluxo de consciência), que não era propriamente uma novidade pois já fora usado em obras como o “Ulysses” de James Joyce, ela reestrutura o discurso indireto livre, moldando-o e criando uma nova estrutura. Há também o side by side – lado a lado – comparando diferentes personagens, com suas antíteses e ambiguidades. Neste único dia em que a trama se desenrola no cotidiano de Clarissa Dalloway e da sociedade ao seu redor, o texto cresce em densidade, pois enriquece-se do mundo interno. As memórias do seu passado retornam à sua mente e ocupam o pensamento de maneira intensa, distribuindo ao leitor uma profusão de pensamentos e sensações descoordenados e diversos, construindo o universo etéreo que de fato reveste a realidade, tingindo-a de cores diferentes de acordo com os olhos que a veem. O ser percebe que o tempo cronológico e o tempo de cada um, da mente, são distintos, e por isso o sujeito vive a realidade de acordo com suas próprias experiências. Ele é ao mesmo tempo, passado, presente e futuro. Sobre a autora Virgínia Woolf, sabemos que foi uma das escritoras fundadoras do movimento conhecido como modernismo inglês. Em suas obras podemos perceber uma crítica a sociedade patriarcal. Em Mrs. Dalloway há a temática centrada na condição feminina, na qual se destacam a opressão sexual e a construção social da identidade feminina. Ao olharmos para a personagem principal Clarissa, podemos ver uma mulher que, ao se casar, larga seus sonhos para se tornar uma “boa esposa”, uma “boa anfitriã”. Fiel retrato da Inglaterra do começo do século XX (período entre guerras) e da relação de opressão entre o homem e a mulher. Assim a autora critica a moral da época ao colocá-la como algo absurdo e nos levar a empatia pela protagonista, uma mulher num mundo machista, e que se encaixa nele, questionando sua vida e a sociedade que a cerca. É bem sabida também (e vergonhosamente explorada), a história de vida de Virgínia Woolf, tão intensa como sua obra: nascida em berço literário, criou uma editora que lançou grandes nomes da literatura, como Katherine Mansfield e T.S. Eliot. Publicou obras importantes como “Orlando”, “Passeio ao farol” e “O quarto de Jacob”, sempre trazendo sua marca registrada: a técnica do fluxo de consciência. Virginia suicidou-se em 1941, atirando-se às águas de um rio após deixar um bilhete de despedida aos entes queridos. Os questionamentos de Clarissa Woolf a protagonista de Mrs. Dalloway naquele único dia da festa, ressoam no leitor. Como teria sido sua vida se suas escolhas tivessem sido outras? Será que teria se casado com o tal político? Teria outros filhos além da pequena Elizabeth? São perguntas que não calam para quem lê a obra. Pensando nisto e em muitas outras coisas mais que envolvem aquela narrativa de Woolf, a escritora Vanessa Maranha assumiu o fio dessa narrativa 95 anos depois. Em “A filha de Mrs. Dalloway”, encontramos boa parte dos personagens do romance, inclusive a própria Virgínia Woolf. Clarissa Dalloway suicidou-se, é sabido mas, vida que segue. Elizabeth, cresceu amparada pelo pai e sob a terrível influência da tal Mrs. Kilman, a tutora alemã. Vanessa Maranha empreende uma ficcionalização da ficção ao reabrir aquele enredo tanto tempo depois. É como se entrássemos em uma máquina do tempo e fôssemos de 1925 até mais ou menos 1985/1990. Estamos situados num tempo sem ano claro. Sem meses definidos, sem semanas delimitadas, apenas vagamente localizados em São Paulo, ou em Londres, em determinados instantes do tempo, que é como a autora empreende essa nova jornada. Uma proposta ambiciosa esta, uma ousadia de resultados absolutamente fantásticos. Tanto que “A filha de Mrs. Dalloway foi escolhido dentre 140 outras obras como o melhor romance inscrito no Prêmio UFES, da Universidade Federal do Espírito Santo em 2019. Não se encontra em “A filha de Mrs. Dalloway”, assim como no livro que lhe serve de inspiração, um grande narrador que conduz o leitor pelas veredas da narrativa; o que ocorre é o surgimento da consciência pluripessoal, onde momentos concomitantes são compostos por olhares diferentes. Encontramos agora Elizabeth, filha de Clarissa a protagonista de Virgínia Woolf. Está com 60 anos, e vivencia a maturidade existencial imersa por sua vez, em suas memórias, seus amores, a tragédia do suicídio da mãe, e crises existenciais terríveis que a levaram a internamentos em clínicas de repouso. Atuam personagens já conhecidos e aqueles outros que a própria vida lhe apresentou e influenciaram sua formação, a começar pelo pai Richard Dalloway, a própria tia Virginia Woolf – irmã de sua mãe, tida e havida como excêntrica sempre –, e aqueles que a vida lhe apresentou, como o marido John, o filho Robert, Ludmila Fleet a nora, e o amante espanhol Antonio. A autora brasileira segue o essencial do processo e estilo de Virginia Woolf. Não se trata apenas de um sujeito, cujas impressões conscientes são reproduzidas, mas de vários sujeitos – com destaque ainda para a sua tutora alemã Mrs. Kilman. Esta representa a nosso ver, dentro da narrativa, aquele vetor potencialmente negativo, a influir na personalidade de Elizabeth e que nos remete à transmissão psíquica entre gerações pelo viés psicanalítico, aquilo que nos é transmitido e que vem a contribuir na constituição do sujeito. Uma transmissão que, em suma, perquire como o sujeito vai apropriar-se de sua história familiar. Se fica aprisionado nela ou sublima impulsos inconscientes integrados na personalidade para culminar em atitudes com valor social positivo. Neste caldeirão existencial fervem reflexões sobre o feminino, a sexualidade, questões ligadas às deformações que abusos na infância geram, as mulheres num mundo desenhado para os homens e todo esse mal estar que se torna cada vez mais o estar no mundo. Verdade seja dita ainda. Vanessa Maranha é autora de leveza de tons, mesmo quando aborda assuntos que parecem mais cruéis, atinge o poético pela superfície das coisas. Mais subjetividade que objetividade nos fins a atingir. Elementos psicológicos e sociológicos entrelaçados, aparecendo, porém, mais por sugestão do que por afirmação. É autora pródiga em escamotear gavetas nos mais recônditos escaninhos e, abrindo-as de chofre e de um golpe, permite um rápido e definitivo inventário do conteúdo. Esses instantes de descobertas aparentemente casuais, porém de antemão preparadas, correspondem ao que a própria Virgínia Woolf chamou de “momentos do ser” ou de “estados de consciência” em mutação contínua. Maranha é especialista em lavrar flagrantes, ou seja, surpreender personagens no instante mesmo em que se consultam, se olham, se flagelam ou se redimem, quando o pensamento escapa do óbvio e envereda pelos meandros da ambiguidade. Isto causa no leitor um prazer ao encontrar a mesma argúcia woolfiana na zona da consciência, aquilo que deflagra uma tempestade cerebral e faz descobertas impressionistas, trespassa de luz as consciências das criaturas, como se fossem vitrais. Em dado momento do texto de a “A filha de Mrs. Dalloway, a voz narrativa pergunta: “Em que preciso instante as coisas começaram a desandar? Como, raios, viemos parar nesse buraco, nesse beco sem saída, doentes, abjetos, mesquinhos?” O fato inconteste é que a nossa “civilização bárbara” deste século XXI aí está desafiadora. Um mundo com claros sinais da mais completa inviabilidade. Disso nos fala em essência, ousamos afirmar, o livro da senhora Vanessa Maranha. Uma das mais fecundas mensagens nesse sentido brota de Petronília, personagem de passagem meteórica na narrativa. Uma garota africana do Congo (19 anos), que terminou seus dias como doméstica na casa de Elizabeth. Como “ninguém conhece o que no outro se desenvolve embrionariamente e se gesta à magnitude”, Petronília acreditou ser possível lavar-se das más ciências tribais do meio no qual nascera. Entre o ódio e a devoção religiosa que o famigerado eurocentrismo sempre plantou, ela almejou construir dentro de si uma catedral do deus cristão e voluntariamente engoliu um crucifixo. Morreu com a cruz atravessada no estômago endurecido da argila que também engolira. “Empedrada de dentro para fora”. Contundente metáfora do que vamos há séculos fazendo uns aos outros. O leitor observará também que para além da bem urdida trama que envolve os protagonistas, há o foco nas nossas relações sociais espúrias, e mais ainda, nas baseadas no sexo, que beiram ao puro e simples canibalismo, com perversões sexuais inimagináveis justamente como encontramos em nos nossos dias. Positivamente o mundo se transformou nessa nau que afunda “com pessoas que desesperadamente buscam amparo nos destroços”. O romance “A filha de Mrs. Dalloway” permite ao leitor enxergar a complexidade da vida humana no seu extremo. A mensagem oculta sob a beleza das palavras da autora descortina este cenário de nossos dias em que vamos nos tornando cada vez mais sujeitos fragmentados. Neste defrontar-se com o desencantamento do mundo. Nessa interiorização de experiências é que talvez possamos afinal renascer. Talvez ainda possamos compreender porque em meio à tanta escuridão, a luz eternamente dirigida para nós, parece distanciar-se infinitamente de nós. Livro: “A filha de Mrs. Dalloway”, Romance de Vanessa Maranha – EDUFES Editora da Universidade Federal do Espírito Santo – Vitória - ES, 2020, 172 p. - ISBN: 978-85-7772-469-7 Contatos para compra e pronto envio inclusive com autógrafo, direto com a autora em: vanessa.maranha72@gmail.com ou ainda no Zap 16 98181-9998


