Dúvidas filosóficas nos revela os princípios norteadores de um dos mais importantes e aclamados filósofos do séc. XX: Bertrand Russel. Um texto tranquilo e didático que não perde em precisão conceitual e profundidade; esclarecedor e absolutamente necessário para se compreender o que, afinal, consiste no ato de filosofar.
Dúvidas Filosóficas, de Bertrand Russel -
Bertrand Russell
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Ver maisPara não acreditar em filosofia de boteco
Bertrand Russell, matemático, lógico e filósofo britânico, decidiu fazer aquilo que todo mundo tenta evitar: questionar tudo, inclusive o que parece mais óbvio. Neste livro, Dúvidas Filosóficas (ou Os Problemas da Filosofia, pra quem comprou a edição chique), ele apresenta uma introdução às grandes questões filosóficas, com aquele charme seco e cético que só um inglês podia ter. O livro não entrega respostas fáceis (eu diria entrega resposta alguma) – e é exatamente por isso que continua sendo atual. É uma aula de desconstrução suave, onde até a cadeira em que você está sentado nesse instante pode não existir de verdade. Um ótimo jeito de começar a duvidar da própria sanidade, mas de um jeito inteligente. Russell inicia o livro com uma pergunta básica: “O que podemos saber com certeza?” – e aí começa o desespero. Ele mostra que nossos sentidos, que parecem confiáveis, são, na verdade, enganadores. Você vê uma mesa de um jeito, outra pessoa vê de outro. E aí? Existe uma “mesa real” ou só versões subjetivas dela? Bem ao estilo Platão e o mundo das ideias. Parabéns, agora até o móvel da sua casa virou questão metafísica. Nesse início ele já mata 90% de tudo que conhecemos ao dizer: "A filosofia origina-se de uma tentativa obstinada de atingir o conhecimento real". Maaaasssss, "Aquilo que passa por conhecimento, na vida comum, padece de três defeitos: é convencido, incerto e em si , contraditório". Na sequência, ele também faz uma distinção entre aparência e realidade. O que percebemos pode não ser como as coisas realmente são. Isso gera a dúvida sobre o que é conhecimento verdadeiro – e é aí que ele entra com o conceito de “conhecimento por familiaridade” (direto, através da experiência) e “conhecimento por descrição” (indireto, baseado em inferência). Tudo muito bonito... até você perceber que 90% do que acha que sabe é “por descrição”. Ou seja, baseado em confiança cega. Legal, né? Isso tudo me lembrou o diálogo entre Sócrates e Teecteto, se vivemos um sonho ou realidade. Afinal de contas nem sabemos se a cadeira existe. Russell também se joga nas grandes questões metafísicas e epistemológicas: o que é a matéria? Existe mente separada do corpo? Como podemos justificar o conhecimento? E a resposta universal dele é basicamente: “não sabemos com certeza, mas podemos pensar de forma racional sobre isso”. A filosofia, segundo ele, não dá respostas definitivas, mas amplia a mente. Um jeito chique de dizer que você vai terminar o livro com mais dúvidas do que começou. E de fato é assim que começa e termina. Ele se recusa a responder, mas é uma obra excelente, pois traz a tona perguntas que estão aí, postas à mesa há quase 3 mil anos do pensamento filosófico. Portanto, dúvidas Filosóficas é o manual perfeito pra quem quer começar a duvidar da vida com elegância. Bertrand Russell, com sua clareza e ironia britânica, mostra que filosofar é mais sobre levantar boas perguntas do que sobre encontrar respostas definitivas. Em tempos de certezas arrogantes e verdades de WhatsApp, Russell oferece um antídoto intelectual: a dúvida bem fundamentada. No fim das contas, a filosofia não resolve os problemas da vida, mas pelo menos garante que você não vai sair acreditando em qualquer coisa. O que, convenhamos, já é um avanço. Recomendo com moderação. Por fim um trecho maravilhoso: "Para ser um bom filósofo deve-se ter o desejo forte de saber, combinado à grande cautela em acreditar que se sabe; também se deve possuir a acuidade lógica e o hábito do pensamento exato."
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