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    Um feminismo decolonial -

    Françoise Vergès

    Ubu
    2020
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9788571260603
    Português Brasileiro
    4.5
    226 avaliações
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    "Eu quis destacar neste livro fatos simples, concretos e tangíveis que iluminam a estrutura profundamente marcada pelo gênero, racializada e estratificada que permite à sociedade burguesa funcionar há séculos. Longe de ser um discurso feminista abstrato, esses fatos são visíveis a quem deseja vê-los. A cada dia, em cada cidade, milhares de mulheres negras, racializadas, abrem a cidade. Elas limpam os espaços que o patriarcado e o capitalismo neoliberal precisam para funcionar. Elas desempenham um trabalho perigoso, mal pago e considerado não qualificado, inalam e utilizam produtos químicos tóxicos e empurram ou transportam cargas pesadas, sendo tudo isso prejudicial a sua saúde." – Françoise Vergès Este livro é um convite para se reconectar com o poder utópico do feminismo, com um imaginário capaz de provocar uma transformação drástica da sociedade. Francesa criada na ilha da Reunião, Françoise Vergès lança mão de uma terminologia nova para descortinar a realidade das mulheres “racializadas”, empregadas domésticas e faxineiras provenientes dos países do “Sul global”, que limpam o mundo. Ela reivindica “um feminismo decolonial”, aberto a questionamentos, análises e mudanças, mas radicalmente antirracista, anticapitalista e anti-imperialista. À diferença do termo “descolonização”, que diz respeito aos processos históricos que sucederam o fim da relação colonial oficial, decolonial, um neologismo já consolidado no debate francês, se refere à necessidade de denunciar e tornar visível o que permanece vigente, porém negado, da estrutura colonial nas sociedades pós-coloniais. Assim, um feminismo decolonial, antipatriarcal e anticapitalista, é aquele que leva em conta as consequências da colonização nas relações atuais para repensar o feminismo por dentro, obrigando-o a entrecruzar além de questões de gênero e raça, já bem mapeadas pelo feminismo negro, a variável da desigualdade social ligada ao capitalismo. A descrição crua e verdadeira de fatos cotidianos atinge em cheio o que Vergès chama de feminismo “civilizatório”, aquele defendido por mulheres “brancas e burguesas” europeias que tipicamente reivindicaram desde os anos 1960 direitos iguais em relação aos homens de sua própria classe, as classes média e alta privilegiada. Para a autora, o feminismo deve ser necessariamente multidimensional, incluindo em sua reflexão raça, sexualidade e classe. A leitura deste texto é uma pancada de lucidez que faz perceptíveis as evidências que nos negamos a ver da opressão normalizada que sofrem milhões de mulheres em todo o mundo.

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    Betina Sauter07/09/2020Resenhou um livro
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    Por um feminismo decolonial

    A história do feminismo geralmente é contata conforme a experiência das mulheres europeias de forma universal. Entretanto, esse feminismo não questiona o privilégio que dá as mulheres brancas, ele protege práticas de exploração que perpetuam por séculos em favor de seus países. Além disso, reforça histórias individuais, apesar das violências do machismo serem estruturais, inseparáveis de estruturas raciais de poder e de dominação. Esse feminismo branco, em concomitância com uma série de políticas econômicas neoliberais, impôs uma narrativa de que existia apenas um feminismo, o qual possuí valores europeus e cunho civilizatório, o feminismo liberal. Segundo a autora, esse é um feminismo que valida políticas neocoloniais sobre países (semi)periféricos, gerando outros tipos de opressão, não somente a masculina, mas de um povo sobre o outro. Em outras palavras, trabalha em prol do domínio dos países do Norte (Estados Unidos e Europa) sobre os países do Sul Global em uma série de campos, entre eles o econômico e político. Em sua crítica considera que sempre existiram feminismos que formulavam questões intersecionais e dá destaque em sua abordagem para as mulheres racializadas e de diferentes continentes. Segue a citação: "as condenavam a limpar e reparar infinitamente os cacos das vidas estilhaçadas de suas comunidades, mas sem retribuir a responsabilidade aos verdadeiros responsáveis. Por que não reservar um tempo para compreender quem as despedaçou e como essas sociedades foram deterioradas?" (p.76). O que chama de feminismo decolonial, portanto, seria o oposto ao feminismo liberal que desconsidera as desigualdades entre as próprias mulheres e reafirma ideologias racistas e coloniais em prol do capitalismo. Esse é um feminismo que revisa a narrativa europeia do mundo e que “consiste no desafio de quem quer revolucionar a prática cotidiana” (p.7).

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    Françoise Vergès

    Cientista política, historiadora, ativista e especialista em estudos pós-coloniais. Vergès cresceu na ilha da Reunião (França), e morou na Argélia, no México, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Graduou-se em ciência política e estudos feministas na San Diego State University (1989). PhD em teoria política pela University of California de Berkeley (1995), publicou sua tese Monsters and Revolutionaries: Colonial Family Romance and Métissage [Monstros e revolucionários: o romance da família colonial e mestiçagem] pela Duke University Press (1999). Lecionou na Sussex University e na Goldsmiths College, ambas na Inglaterra. Entre 2014 e 2018 foi titular da cátedra Global South(s) no Collège d'Études Mondiales da Fondation Maison des Sciences de l’Homme. Publicou diversos artigos sobre Frantz Fanon, Aimé Césaire, abolicionismo, colonialismo, pós-colonialismo, psiquiatria, memória da escravidão, processos de creolização no Oceano Índico e novas formas de colonização e racialização. É autora de documentários sobre Maryse Condé e Aimé Césaire. Colabora regularmente com artistas, como no workshop Mapping of the Post-Colonial Space [Cartografia do espaço pós-colonial]. Trabalhou como curadora de projetos da Documenta11 (2002) e da Paris Triennale (2012). Como curadora independente, organizou o projeto de visitas guiadas “O escravo no Louvre: uma humanidade invisível” (Museu do Louvre, 2013) e as exposições "Dez mulheres poderosas" (2013) e "Haiti, medo dos opressores, esperança dos oprimidos" (2014) para o Mémorial de l'Abolition de l'Esclavage em Nantes [Memorial da abolição da escravidão]. Obras selecionadas: L’Homme prédateur. Ce que nous enseigne l’esclavage sur notre temps (Albin Michel, 2011) Exposer l’esclavage: Méthodologies et pratiques (Africultures, 2013) Le Ventre des femmes: Capitalisme, racialisation, féminisme (Albin Michel, 2017)

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