A graça de ser pesquisadora é aceitar que você vai ler e aprender e, ainda sim, ainda vai ter um mundo de coisas novas para conhecer.
Foi esse o sentimento que tive quando soube, a não muito tempo atrás, da existência de biografias escritas por ex-escravizados em um contexto histórico escravocrata.
Não dá para dizer que o relato de William é simplesmente tocante, ele ultrapassa a escrita, contando uma história real e que era cotidiana da época, mas que, com a escrita de William toma outras proporções.
Histórias como essa, mesmo que apagadas e escondidas ao longo da história negra, contribuíram para os movimentos abolicionistas no Brasil e nos EUA, tornando possível que a história fosse contada do ponto de vista dos colonizados, algo extremamente incomum.
A existência da biografia, por si só, já é uma potência própria, em vista das dificuldades de um preto escrever sua própria história no século XIX.
Os prefácios também acabam fazendo parte do livro, ver que era necessário que pessoas brancas com certo renome reconhecessem que realmente era os ex-escravizados que escreviam suas histórias diz muito sobre o poder de ser ouvido, e onde esse poder sempre esteve concentrado.
Apesar da história sofrida e forte, cheia de eventos dolorosos e com acontecimentos extremamente tristes, William encara sua história de vida de frente, sem negar seus erros e arrependimentos.
É uma biografia que definitivamente não representa apenas uma pessoa, mas todo um grupo que foi inferiorizado, extirpado e muitas vezes morto.
É uma história que não pode ser deixada para trás porque a gente não pode nunca esquecer daqueles que vieram antes, dos percalços muitas vezes insuperáveis que passaram, já que são eles que nos dão força para seguir.