Em Velhos, sua nova coletânea que tem como tema a senilidade, as personagens não estão mergulhadas em reminiscências de uma vida passada, como quase sempre vemos na literatura. Antes de tudo, elas fazem de seu declínio atual matéria para nos contar boas histórias em textos que carregam em sua brevidade a marca humana. Nomear a forma narrativa presente de microconto seria reduzir o projeto literário da autora. O prefixo micro, que muitos críticos insistem em usar para se referenciar às narrativas de pequena extensão, nada acrescenta à força de seus textos, que são poderosas sínteses do nosso tempo vital, e por isso mesmo se revelam pequenas joias lapidadas por cuidadoso trabalho de ourivesaria. Velhos, como toda boa literatura, fala ao nosso universo íntimo, e nos lembra a finitude de nossa própria existência. — Itamar Vieira Junior Este novo trabalho de Alê Motta mostra uma evolução na sua escrita, uma escrita que abre espaço para encaixarmos na leitura as nossas experiências pessoais, claro, como toda boa literatura, mas que, ao mesmo tempo, é uma escrita que diz tudo. As tramas presentes neste Velhos trazem novas possibilidades de interpretação, as situações apresentadas vão para muito além do mero uso das alegorias geralmente relacionadas ao tema velhice. Alê constrói as estruturas com muita habilidade, ela é uma legítima representante de um grupo de escritores com a mão precisa. Daqueles que não contam nada além do necessário, e, por isso mesmo, contam tudo. — Carlos Eduardo Pereira
Velhos -
Alê Motta
Velhos
No livro “Velhos”, da escritora Alê Motta, encontramos reunidas trinta narrativas brevíssimas que se enquadram no que conhecemos como microcontos. São textos curtos que chocam e fazem pensar pelos momentos delicadíssimos em que abordam suas personagens. E estas, são aqueles que se encontram na etapa da vida humana chamada terceira idade, idosos todos, ou ainda, os do grupo de “risco”, da atual pandemia que assola o mundo. E a galeria de velhinhos que a autora nos apresenta, cada qual com a sua problemática particular, pinta o sete, o oito, pinta o diabo! Há os revoltados, os homicidas, os dissimulados, os esquecidos, os histéricos, os abandonados pelas famílias e até aqueles que amam como se fossem adolescentes de vinte aninhos. Muito boa a variedade de focos e enfoques daquelas vidas escolhidos pela autora. Esquecemo-nos, muito por conveniência, que naquela etapa da vida perdura sempre a vida humana que um dia viçosa e cheia de energia, amadureceu, ao menos fisicamente. A técnica utilizada nos textos, traduz a urgência amparada na denúncia social a construir enredos e formatar personagens. Com um mínimo de palavras mostra e sugere, deixando ao leitor a tarefa de preencher as elipses narrativas (omissão intencional de códigos e/ou informações facilmente identificáveis pelo contexto), e entender a história por trás da história escrita. Alê Motta já fez algo semelhante em obra anterior a esta, ambas com excelentes resultados ficcionais. Em “Velhos”, há a denúncia clara do que pode acontecer àqueles que não morrerem na juventude ou na idade adulta. Sendo mais claro. A nossa metade ruindade, aliada cada vez mais com a outra metade – indiferença -, como bem o frisou José Saramago, a produzir o típico final de vida para humano. Realmente escabroso. Rumo à cova sem outras perspectivas. Velhos? Nem pensar. Que morram todos. E quanto mais rápido melhor. Eis a nossa humanidade que dissimula inclusive – e a autora também mostra isso –, o pseudo assistencialismo de fachada aos idosos! São textos de condensação extrema e realismo cegante em sua maior crueza que servirão, por certo, ao despertar do óbvio, senão pelo sentimento de humanidade que carregam, mas pelo temor do que pode nos esperar mais à frente na existência. Na abertura de “Velhos”, a autora faz dedicatórias. Uma delas é para o escritor Marcelino Freire, que a “desafiou, numa tarde-não-me-lembro-a-data, a escrever sobre velhos”. Muito bem; fica registrado aqui outro desafio – faço-o eu por absoluta convicção de sua capacidade literária. Puxando pela memória um pouquinho, a autora há de lembrar que escrevi em resenha de outra obra de sua autoria – “Interrompidos” (na datada precisa de 13/09/2018): “Hemingway afirmou aos quatro ventos que o ato de escrever consistia antes de mais nada em cortar palavras. Mas o corte de palavras nem sempre traduz corte de excessos. Atmosferas ficcionais são necessárias não só por uma questão de modelagem textual, como também de sedução do leitor. Minguar demasiadamente o fluxo verbal, talvez leve à falta de descrever emoções dos personagens, sequer sugeri-las. E isto é também primordial. Abordagens diretas e francas, sem rebuços, que descem a detalhes grotescos, pode abrir brechas ao humor negro. À tragicomédia pura e simples. Ficamos na torcida aguardando novas produções da autora, encorajando-a a fustigar a inquietação como impulso interior, descobrir novas vertentes ficcionais, necessidade a que todos nós que lidamos com a palavra escrita, mais cedo ou mais tarde, devemos apelar.” Finalmente, vale a pena transcrever um texto de “Velhos”, sob o título de “Remédios”. É texto que flagra o que se passa também na mente desses estorvos humanos a que “carinhosamente”, damos o nome de “Velhos”. Surpreendente a sensibilidade da autora a demonstrar que o envelhecimento é meramente físico, a alma? Jamais! “Remédios Tomei todos os comprimidos da manhã e preciso passar na farmácia, porque o da pressão acabou. Depois da igreja, a farmácia é o lugar que mais visito. Semana passada foram quatro vezes. O Luizinho e o Rodolfo disputam para me atender no balcão. Prefiro quando vence o Rodolfo, que é simpático e conta piadas para me divertir, esquecer essa solidão da viuvez. A Lindalva, do caixa, sempre elogia meu cabelo e me passa receitas ótimas. Na frente da farmácia tem uma banca de jornais. O dono da banca é o senhor Agripino. Toda vez que ele me vê, oferece uma revista ou um jornal. Eu nunca aceito. Mas hoje vou aceitar. E mais. Vou convidá-lo para ir à igreja. Vou arriscar. Ontem aprendi com minha netinha que o Agripino é meu crush.” Livro: “Velhos”, Contos de Alê Motta – Editora Reformatório – São Paulo – SP, 2020, 136 p. ISBN: 978-85-66887-67-9 Link para compra e pronta entrega: https://editorareformatorio.minhalojanouol.com.br/produto/234840/velhos (*) Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor, Pesquisador, e Crítico literário. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos e Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 28 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações, dentre os quais: Literatura BR, Homo Literatus, Mallarmargens, Diversos Afins, Jornal RelevO ,Revista Subversa, Germina Revista de Literatura e Arte, Suplemento Correio das Artes, São Paulo Review, Revista InComunidade de Portugal, Revista Laranja Original, Revista Penalux e Revista Fórum. //////
Estatísticas
Avaliações
4.1 / 694- 5 estrelas30%
- 4 estrelas41%
- 3 estrelas24%
- 2 estrelas5%
- 1 estrelas0%


