Minha história

    Michelle Obama

    Objetiva
    2018
    501 páginas
    16h 42m
    ISBN-13: 9788554511876
    Português Brasileiro
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    Catharine Ambrosio  picture
    Catharine Ambrosio 07/08/2025Resenhou um livro
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    Vendo a Casa Branca com olhos de uma Mulher Preta - Livro Maravilhoso

    A leitura da autobiografia de Michelle Obama permitiu-me consolidar a admiração por uma mulher que, ainda que por muitos anos fosse conhecida como “a esposa do presidente”, soube romper com os limites simbólicos que frequentemente se impõem às mulheres que gravitam na órbita do poder. O livro, ao desvelar os bastidores de sua formação pessoal, familiar e profissional, confirma que ela não foi um apêndice do cargo do marido, mas uma liderança em si mesma — articulada, sensível e politicamente consciente. O que mais me tocou na obra foi a maneira como Michelle se posiciona diante de temas complexos — como o racismo estrutural, o luto, a maternidade, as concessões de uma mulher que escolhe sustentar a família para que o outro alcance o topo, e o peso simbólico de ser uma mulher negra na elite política e educacional dos Estados Unidos. Ela retrata com sutileza e contundência as “nuances silenciosas e cruéis” que marcam a exclusão social — sobretudo quando relembra as desconfianças veladas nos corredores de Princeton, ou os olhares de reprovação que carregavam, nas entrelinhas, a dúvida: "Você está aqui por mérito ou por cota?" Entre as muitas passagens que destacam sua lucidez e delicadeza, impressiona a reflexão segundo a qual “o tempo era um presente que se dava aos outros”. É com esse espírito de doação — não isento de renúncias — que Michelle descreve sua maternidade e a maneira como anestesiou suas próprias ambições em nome da estabilidade familiar. Não há, porém, amargura no relato; há maturidade e discernimento quanto ao preço de cada escolha. A narrativa também ganha densidade ao tratar de perdas familiares. A morte do pai, retratada com rara sensibilidade, revela um tipo de dor que “torna a música um incômodo” e faz da rotina um exercício de sobrevivência emocional. Ao mesmo tempo, sua memória sobre ele — marcada pela leveza, pelo bom humor e por um afeto silencioso — ecoa como a raiz de sua força interior. É notável o equilíbrio entre introspecção e crítica social, entre o afeto familiar e o engajamento público. Michelle não romantiza sua trajetória, tampouco dramatiza em excesso. Seu olhar é, sobretudo, honesto e firme. Ao reconhecer que mesmo os mais brilhantes carregam uma coleção de críticos e dúvidas, oferece ao leitor uma lição de perseverança e resistência: a importância de “conviver com o barulho” e apoiar-se nas vozes que acreditam em nós. A obra também traz um retrato humanizado do cotidiano presidencial — com os rituais familiares, os desafios da exposição pública e a vida que segue, apesar da opulência e da vigilância constante. A descrição da Casa Branca, mais do que um espaço de poder, revela-se um cenário onde é preciso aprender a continuar vivendo — sendo mãe, mulher, amiga, cidadã. Por fim, chama atenção sua capacidade de construir vínculos. Michelle enaltece o poder das amizades femininas, da rede de apoio silenciosa que se forma por gestos cotidianos, e relembra a figura de Mandela como símbolo de resistência pacífica, dotado de uma fé admirável na natureza humana. Ao tecer essas memórias, ela nos oferece, mais do que uma autobiografia, um manifesto de dignidade, coragem e esperança.

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