O que é a vida no deserto? Não a vida religiosa, monástica e mística, a que tanto estamos acostumados a ouvir nas inúmeras hagiografias do mundo cristão dos primeiros séculos? Esta é a perspectiva oferecida em Poema dos árebes, de Chânfara, um poeta lendário da Península Arábica, conhecido como Chânfara, que significa o homem dos lábios grossos. O poeta nasceu nas terras do Iêmen na segunda metade do séc. V. Faz parte de um grupo de poetas, do período pré-islâmico, conhecido como suluk, os fora da lei. E aqui, de forma muito peculiar, esse grupo de poetas lança mão de versos para irem contra a coletividade de suas tribos, da imposição do clã, da corrupção de seus grupos e aldeias, para, então, reafirmarem sua individualidade frente à vida tribal que eles julgavam cercear sua liberdade pessoal.
Por usarem tantas vezes versos que iam contra o grupo, foram exilados por seus parentes e o contexto do Poema dos árabes se abre nessa perspectiva do poeta na vida solitária do deserto, identificando-se com os animais selvagens que ele encontra. Daí, o longo grupo de versos, que o identifica com um chacal, um dos três animais desérticos citados e admirados pelo poeta por duas razões: 1) eles não revelam segredos confiados; e 2) eles não relegam um homem por ato culpável. Todavia, é ainda ligado ao primeiro tema - o da liberdade individual - o grupo de versos que transcrevo a seguir e que resplandece esse tema de forma belíssima:
Não sou desses que à noite apascentam camelos
e crias mal nutridas, fêmeas que não aleitam.
E nem sou covarde que disfarça o mal hálito e
depende da mulher para todo e qualquer trato.
Nem sou desses néscios, avestruz que tem no peito
um pardal que sobe e desce em constante frêmito.
Nem sou desses tolos, caseiros, enrabichados,
que vão e vêm, óleos no corpo, olhos delineados.
Nem feito parvo, mutuca, mais nocivo que útil;
ameaçado, fica inerme, basta que o assustem.
Não sou desses que encolhem nas trevas se a camela
Inclina o passo num deserto sem referência.