Em 1064, quando os cristãos retomam a cidade de Coimbra, o mouro Ab´ul e a lusitana Urraca iniciam uma dinastia com inconfundíveis olhos castanhos e cabelos ruivos, que se adapta às mudanças políticas e religiosas da Península Ibérica na tentativa de sobreviver. Liderada por mulheres em todas as gerações, que, para sobreviver, aceitam novas verdades a cada mudança ideológica. Adaptam-se como se sempre tivessem vivido nos mundos desconhecidos, que enfrentam sem medo, apesar de, no fundo, temê-los. Calado e evitando tomar partido, o clã testemunha as guerras da reconquista, a corrupção da Igreja católica, torna-se nobre por acaso do destino, é devolvido à plebe, resiste à Peste Negra, conhece o amor. Os mais corajosos capazes de assumir posição por valentia física ou intelectual são alijados do grupo: falar expõe todos ao perigo. Assim, um parente morre em sofrida solidão após a batalha de Aljubarrota. Outro, por querer aprender a ler, é tratado como louco. A mulher, que se deita com os homens desejados, é condenada ao esquecimento pela matriarca do momento. Ao mesmo tempo em ela amaldiçoa a “perdida”, prega publicamente o amor ao próximo e o perdão. Aparentemente derrotada, a imensa família se separa em dois. Um ramo se estabelece no Norte e outro, em Lisboa onde, para matar a fome, as mulheres se prostituem e os homens jovens embarcam na aventura das navegações. Apesar dos cuidados, a Inquisição, outra vez, provoca uma cisão. Uma jovem enfrenta a família e se casa com um judeu. A família do marido a deseja porque a sua inquestionável posição de cristã-velha é garantia de proteção. Expulsa de seu clã de origem, ela forma um novo grupo, onde, na terceira geração, nasce aquele que, finalmente, será levado à fogueira. A miséria de Lisboa parece, porém, impregnada na carne delas. Suas simples presenças contagiam o remediado povo do Norte: um acontecimento político leva-os à falência. Então, a filha de um casal formado por uma prima do sul e um primo do norte, que recebeu o nome de Urraca, foge para o Brasil levando a ilusão de quase mil anos: “(...) como se fosse fácil, Urraca, 38 geração de Ab´ul e de Urraca, decidiu fazer-se ao mar, atravessar o oceano, levar seu sangue ao Brasil, o sangue e os olhos mouros, também os cabelos vermelhos, até os antigos defeitos, velhos vícios de sua gente – tentando ou não tentando o final seria o mesmo, ao menos se distraia (...)”.
Mil Anos Menos Cinqüenta -
Angela Abreu
Imago
1995
264 páginas
8h 48m
ISBN-13: 9788531204395
Português Brasileiro
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