Por que as pessoas que leem romances não leem livros como Na ponta dos dedos?
Por causa das 500 páginas? Duvido! Ao olhar as estatísticas de leitura de obras como Orgulho e preconceito e de Morro dos ventos uivantes, cujos enredos são medíocres e chatos tal como os personagens (Heathcliff sendo desprezível mesmo) e ainda outros que não perderia meu tempo para ler (afinal não sou a personagem Poll do conto de Virginia Woolf, Uma sociedade), como os best sellers de Colleen Hoover. Parafraseando a própria Waters a partir de uma passagem deste livro: "as ficções cínicas, improváveis que passam por literatura hoje em dia eu teria vergonha de mostrar a quem quer que seja." Chego assim à conclusão de que a razão dessa discrepância é o fato de que os romances populares são sempre protagonizados por casais heterossexuais. Em Na ponta dos dedos (preferia que o título original "Fingersmith" não tivesse sido traduzido) Sarah Waters criou uma narrativa interessantíssima, nos arrastou com maestria para a era vitoriana em que maridos trancafiavam suas mulheres em hospitais psiquiátricos quando bem entendessem. Nos fez suspirar a cada reviravolta e nova descoberta. A leitora passa a querer saber tudo sobre as origens e o destino de Maud e Sue e como suas histórias se entrelaçaram, o que é graciosamente contado pela autora ao longo do texto, desenvolvendo personagens complexas que percorrem uma linha tênue entre o certo e o errado enquanto enfrentam as consequências das suas decisões. Decisões que, muito embora, são irremediavelmente afetadas pelo segredo guardado por Mrs. Sucksby durante 18 anos, já que da mesma forma que Maud não poderia apagar da memória as sessões de leituras moralmente questionáveis forçadas pelo tio, nem deixaria de receber olhares constrangidos e indecorosos daqueles que sabem o que acontece em Briar, tampouco Sue poderia ser uma lady quando foi criada para ser uma vigarista dos subúrbios de Londres. No entanto, nem a popularidade da adaptação do diretor Park Chan-wook (mais uma vez a sexualização da história por um olhar masculino) despertou o interesse das pessoas por esta obra. Enfim, a baixa popularidade de obras com protagonistas lésbicas tem que ter algum significado, já que cada vez mais as pessoas se dizem não homofóbicas e feministas. Enquanto isso, meninas que mais tarde se descobrirão mulheres lésbicas são pressionadas a consumir romances intragáveis com personagens heterossexuais, pois alguns são vistos como clássicos ou imperdíveis. Quando li Crepúsculo, por exemplo, nem sonhava que Sarah Waters existia, apesar de ser uma autora premiada. Nas escolas deve ser assunto proibido. Sendo assim, quantas outras autoras de obras lésbicas são invisibilizadas ao longo do tempo? Talvez seja reflexo de uma sociedade em que meninas ainda sejam criadas para serem boas esposas e mães e muitas vezes babás e empregadas domésticas para seus maridos, ainda que obtenham sucesso profissional e independência financeira, citando a autora: Estou lhe oferecendo algo muito grande e estranho. Não a sujeição banal de uma esposa ao marido, essa servidão, para a violação e o furto lícitos, que o mundo chama de matrimônio, estou falando de liberdade. Uma liberdade que não é concedida com muita frequência ao seu sexo.; ou de uma sociedade em que uma mulher é morta a cada 10 minutos por um homem, ou em que o estupro marital seja algo real, mas é mais palatável acreditar que os relacionamentos heterossexuais são como no universo de Bridget Jones e não como no de Gisele Pelicot. Aliás, por falar nesse caso, não pude deixar de pensar nele quando Waters escreve o seguinte trecho em Na ponta dos dedos: "O seu tio é um da pior espécie, pois não sai de sua própria casa, onde sua vilania não passa por uma idiossincrasia." Considerando que estamos falando de uma sociedade que em pleno século XXI considera a hiper sexualização de Madonna (para homem ver) como algo disruptivo e feminista, é como se as pessoas tratassem os romances lésbicos como apócrifos da bíblia cristã. Muitos ao serem adaptados para o cinema tem seus finais alterados para que seja aceito pelo público hétero (Tell it to the bees) ou as protagonistas lésbicas se tornam melhores amigas (Tomates verdes fritos). O que será que diriam então do "obsceno" Toque de veludo, da mesma autora? Mas certamente deveríamos é agradecer, não é? Afinal não somos mais jogadas em hospitais psiquiátricos e nem queimadas em fogueiras. O limbo cultural seria um refresco.
