O Mediterrâneo medieval reconsiderado -

    Néri de Barros Almeida, Robson Della Torre (Org.)

    Unicamp
    2019
    360 páginas
    12h 0m
    ISBN-13: 9788526815063
    Português Brasileiro

    A representação da Idade Média dominante na memória histórica ocidental é fundamentalmente continental e europeia. Abordando um intervalo de mais de mil anos de história, a coletânea O Mediterrâneo medieval reconsiderado pretende, por meio da recuperação e da correlação de fatos ocorridos no Grande Mar ou em suas margens, colocar em questão essa tradição. A segmentação que domina a abordagem das sociedades cristãs (tanto latinas como gregas), islâmicas e judaicas do período medieval é reconsiderada, destacando-se as relações e conexões suscitadas pela experiência de compartilhamento de um mesmo espaço. O Mediterrâneo aparece como protagonista, articulador e testemunha da experiência histórica de diferentes povos que, por meio dele, mantiveram relações intensas e surpreendentes.

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    Marcos Caio18/12/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Um Mediterrâneo Protagonista

    O livro organizado pela dupla de historiadores, Néri de Barros Almeida e Robson Della Torre, é um conjunto de capítulos de publicações acadêmicas escritas por especialistas de diferentes regiões, são autores renomados em suas pesquisas. Eles repensam a história medieval de uma perspectiva que reintegra o Mediterrâneo à Idade Média. Na medida em que a Idade Média é permanentemente representada apenas como uma etapa, ou início, da história da Europa. A coletânea aborda um período histórico de mil anos, ordenado em nove capítulos e uma conclusão que faz um balanço histórico sobre a problemática das relações Ocidente e Oriente, buscando a origem de valores contemporâneos, os desvios ideológicos que sustentam o discurso do "choque de civilizações" que justificam limites culturais e religiosos entre cristãos e mulçumanos. O volume desdobra-se inicialmente sobre a problemática fundamental: como a história medieval no Grande Mar foi escrita e como ela pode ser abordada atualmente, Daniel König provoca uma reflexão sobre os historiadores que, mais afastaram essas culturas em suas interpretações históricas, do que tentaram integra-las. Esse desafiador espaço deve ser examinado além dos seus limites geográficos precisos, aqui seria mais justo pensarmos em sua totalidade, seus contatos, trocas e interações entre os povos das margens do mediterrâneo. No capítulo seguinte, Stéphanie Guédon confronta a geografia da Antiguidade Tardia com testemunhos tradicionais e descobertas arqueológicas em que o espaço mediterrânico norte-africano foi um lugar bem mais integrado ao conjunto do Império Romano do que pode-se supor. Nesse período, surgem querelas doutrinárias mobilizadas por personagens da igreja cristã que buscavam a supremacia de suas ecumenes sobre determinadas regiões, Robson Della Torre mostra o caráter político dessas disputas, maior até, que os conflitos propriamente religiosos. Renato Viana Boy faz apontamentos sobre a presença barbara ocidental no Império Bizantino através da históriográfia clássica, não nega mudanças no contato entre povos mas ele destaca o caráter moderado quanto ao reconhecimento de Bizâncio sobre esses povos do ocidente mediterrânico. É a partir daqui, que a professora Petra Sijpesteijn observará a questão da expansão islâmica, narrando à exemplo do sūq, o mercado comum na cultura mulçumana. Contrária ao consenso vigente, para a autora, o Grande Mar era um espaço de igual importância para os três grupos que ocupavam toda essa extensão: cristãos ocidentais, orientais e mulçumanos. Com base em influências que perpassam relações intelectuais, técnicas, artísticas e comerciais que vieram conectar esses povos através do mar, onde existe um repertório cultural compartilhado, incluso em uma rede interativa de um mundo globalizado. André Miatello irá mostrar como as fraturas do cristianismo persiste muito mais por questões vinculadas a querelas teológicas e mudanças geopolíticas do que possíveis conflitos causados pela expansão islâmica do período. A igreja latina buscou interpretações bíblicas como arsenal contra o islã, montando alegorias que fortaleceu seu projeto, muito mais político que propriamente religioso, daqui surge a base de uma Europa branca e cristã. A circulação da fé cristã é analisada em demasia por Henri Bresc, o históriador mostrar através de mapas a geografia da graça aonde os marinheiros tiveram papel fundamental para consolidar esses pontos de devoção. Já na alta idade média, Stéphane Gioanni, com o espolio de pesquisas pluridisciplinares na região dos Bálcãs o autor mostra o profundo cruzamento cultural entre as culturas cristãs bizantinas, latinas e mulçumanas no território. Um acervo de estudos políticos e sociológicos pouco estudado na academia (sobretudo no Brasil), que podem decifrar várias características do perigo dos nacionalismos vigentes na região. O papel do história é fundamental para reconstituir a memória e a identidade desses povos. Néri de Barros Almeida, também organizado do livro, fica responsável pelo balanço histórico do período medieval no Mediterrâneo. Ela mostra como é necessário questionar as bases históricas do passado a luz das novas técnicas de pesquisa, além da releitura de obras consolidadas que apoiam-se em ideias de soberania e dominação (conceitos como: superioridade, atraso, civilização, identidade nacional, etc). Ela pensa essa história/território, não como um lugar de conflito e separação, mas como um lugar de reintegração de povos. Como é analisado em todo o livro, a idade média é usada como bode expiatório para reproduzir preconceitos étnicos e religiosos. Um espaço completamente capturado por uma imagem européia, essa extensa geografia é mais coerente na perspectiva de um Mediterrâneo Medieval. É neste lugar que se encontram espaços de trocas, uma economia-mundo que acontece, as diferenças culturais não necessariamente impedem relações ou respeito entre os povos. A coletânea reúne uma pluralidade de pontos de vistas sobre a questão do medievo, é fundamentalmente um livro que pede para refletirmos sobre os limites tradicionais da história medieval. Como os organizadores se propõe, é uma contribuição para promover um alargamento do debate sobre essa história.

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