O MEZ DA GRIPPE (1981), de Valêncio Xavier.
Há pouco mais de um século, o Brasil e o mundo passavam por um surto de influenza (ou gripe espanhola, como ficou popularmente conhecida). Comércios, indústrias e escolas foram fechadas; campeonatos esportivos foram suspensos; quarentenas foram decretadas. Nos jornais, através das cartas de leitores, ou de boca em boca, circulavam receitas e remédios caseiros milagrosos, nenhum cuja eficácia era comprovada cientificamente. Cerca de 65% da população adoeceu; acredita-se que 35 mil pessoas morreram no país, aproximadamente; mas esse número pode ser bem maior dada a subnotificação da época. Soa familiar?
Em O MEZ DA GRIPPE, Valêncio Xavier apresenta um recorte desse período, na cidade de Curitiba, entre os meses de outubro e dezembro de 1918. São colagens de notícias, de propagandas, depoimentos, decretos e comunicados oficiais do governo - a grafia oficial da época foi mantida em todos os textos. Xavier trabalha com a montagem desses textos, com imagens, com os espaços da página, com tipografias diferenciadas - realmente é um trabalho original.
Consegui localizar quatro narrativas principais - podem existir outras que me escaparam - que vão se cruzando ao longo da obra. Entremeadas com informações sobre a pandemia, notícias acompanham os momentos finais da Grande Guerra na Europa. Em dois outros momentos temos os depoimentos - seriam reais ou fictícios? - datados de 1976, de uma tal Dona Lúcia. Finalmente, um homem vaga sozinho pelas ruas vazias da cidade, enquanto boa parte da população se isola em casa por conta da gripe.
É uma obra curta, mas genial, na qual o autor capta o sentimento e a atmosfera reinante naquele período, do medo, apreensão ou negação à ironia e comicidade de algumas cenas.
Momento perfeito da editora Arte & Letra que resolveu relançar essa obra, esgotada há anos, justamente em tempos de pandemia de covid-19. Mais atual impossível!