Quem acompanha o Coruja já deve ter ouvido falar no meu projeto pessoal de conhecer os grandes mestres da fantasia a. T. (antes de Tolkien). Já passaram por aqui a injustamente desconhecida Hope Mirrlees e o magistral T. H. White – e outros mais estão a caminho.
Morris é um desses grandes – um mestre de mestres, uma vez que é inspiração reconhecida de autores como Tolkien (que fala dele em cartas à esposa) e Lewis (que chegou a escrever ensaios sobre o autor). O mais conhecido de seus livros é The Well at the World’s End, que conta a épica jornada do príncipe Ralph de Upmeads atrás do Poço do Fim do Mundo, guardado por uma jovem de rara beleza, cujas águas conferem não apenas longevidade como transformam o próprio destino de quem as toma.
O livro foi publicado em 1896 e tem uma linguagem no melhor estilo “balada medieval”. Eu até teria reclamado, não fosse o detalhe que ele foi o terceiro livro do mês nesse estilo – e depois de quase enfiar a cabeça na parede tentando ler Shakespeare em inglês, a linguagem de Morris foi fichinha.
Entendo a escolha que ele fez para a forma de contar sua história. The Well at the World’s End é uma obra que se insere na tradição romântica medieval, inclusive nos temas – amor cortês, cavalheirismo, justas... Posso perfeitamente imaginá-la sendo cantada por um bardo com o acompanhamento de um alaúde – o texto tem uma musicalidade tão viva, que você a sente mesmo lendo (atividade normalmente silenciosa).
A oralidade, aliás, é uma característica que sempre identifico com a idéia de épico. Lembremos sempre que Homero – o primeiro autor épico – não escrevia, até porque, pela tradição histórica, ele era um bardo cego. A Ilíada e A Odisséia foram criadas sendo declamadas, não escritas.
Ralph, nosso protagonista, é o filho caçula do rei Peter, do pequeno reino de Upmeads. Upmeads não é apenas um reino minúsculo, mas também é tão pacífico que, para seus quatro jovens príncipes, chega a ser tedioso. Tanto que, em vez de estarem fazendo intrigas entre si para ver quem será o próximo a sentar no trono, eles anseiam pela oportunidade de poder subir num cavalo e sair a esmo pelo mundo em busca de aventuras.
O rei Peter percebe que é chegado o momento de soltar os filhos no mundo. Assim, ele os leva até os limites da cidade, entregando a cada um deles um cavalo, um criado e um saco de moedas... para então observar que eles devem tirar a sorte no palitinho – três deles partirão, um em cada direção, e o quarto, que tirar o menor palito, ficará em casa para cuidar dos pais na velhice e se tornar herdeiro do trono.
A Ralph cabe o menor palitinho. E assim, contrariado, ele vê os irmãos partirem e volta para casa com o pai, para alegria de sua mãe, a rainha. Mas vamos ser sinceros: Ralph não seria um herói se passasse o resto da história atrás da saia da mãe. É claro que ele vai desobedecer ao pai e partir em sua própria jornada – que ocupa ¾ do livro, com o ¼ restante sendo a viagem de volta, da qual a volta dos Hobbits em O Senhor dos Anéis é um eco bastante reconhecível.
A despeito dessa ‘rebeldia’ Ralph é amado e respeitado por todos. Ele é gentil, cortês, corajoso. É admirado tanto por homens quanto por mulheres. Na verdade, ele faz sucesso tanto com a feiticeira manipuladora quanto com a sábia Donzela da Abundância. Mesmo o vilão (e, curiosamente, o temido Lorde de Utterbol se chama Gandolf) o admira e onde quer que ele chegue, faz amigos que o seguirão até o fim do mundo.
E essa não é uma figura de linguagem.
Raph é o arquétipo perfeito do Herói. E é um personagem complexo, a despeito desse manto de perfeição: comete erros, engana-se... apaixona-se perdidamente e falha em salvar a vida da mulher amada. Mas, ainda que guarde e respeite a memória desse primeiro amor, ele se dá uma chance ao lado de Ursula, que o ama o suficiente para segui-lo até o final da jornada – e até para consolá-lo quando ele é confrontado por essas lembranças.
Convivem ainda na história a religião e o sobrenatural. O mundo criado por Morris é clara e obviamente cristão, mas é também povoado de feiticeiros, demônios e criaturas mais velhas que o Homem, que pululam pela ‘Floresta Perigosa’.
Tive a constante impressão de que essa Floresta é algo como um mundo paralelo dentro do mundo do livro. Um dia, você pode atravessá-la em segurança de ponta a ponta; em outro, ela é tão vasta e labiríntica que um homem pode vagar por anos sem encontrar a saída.
Em diversos aspectos, The Well at the World’s End me faz pensar nos contos do Rei Arthur. A forma como Ralph conquista corações e mentes lembra muito o carisma do jovem soberano de Camelot; bem como a lealdade que Arthur inspira em todos os seus cavaleiros. Também a mistura de temas mundanos e religiosos, a idéia do amor cortês (sem maridos traídos, contudo), a busca por algo místico e poderoso... todos são temas bastante familiares.
A verdade é que The Well at the World’s End é um verdadeiro trabalho de ourivesaria. Não à toa, aliás, já que Morris era metido a artesão, constantemente preocupado com a busca pelo belo, pela perfeição. A cada passo que Ralph dá em sua jornada, nos deparamos com o Maravilhoso, o Sobrenatural, o Fantástico. E nos surpreendemos em como alguns desses passos nos são familiares.
Se Tolkien é o pai da Fantasia como gênero literário, Morris é um dos avôs na certidão de nascimento. Seus livros são uma verdadeira aula para todo amante da fantasia – e deveriam ser mais conhecidos do grande público. Infelizmente, assim como a maior parte dos autores que tenho vasculhado nesse baú, apenas um pequeno público especializado tem conhecimento deles.
Uma vez que acho ainda pouco provável darmos de cara com esse livro no Brasil e uma vez que ele já entrou em domínio público conforme a legislação de direitos autorais, faço minha parte e deixo aqui o link para download da obra em inglês no Project Gutenberg.
Um pouco de paciência é recomendada... e um bom dicionário da língua. Mas o esforço vale à pena.
E aqui terminamos os livros do tema de março do Desafio Literário 2011. Curiosamente, os três títulos escolhidos foram lidos (ou ouvidos) em inglês e todos são épicos do gênero fantasia (esse último não é coincidência). Mês que vem teremos ficção científica. E, pelas sinopses que escolhi, mais fantasia. Assim sendo... até abril, pessoal!
(resenha originalmente publicada em www.owlsroof.blogspot.com)