Assim como Machado de Assis, nosso grande contista, o jornalista e escritor Lima Barreto (1881-1922) dispensa apresentações. Quase todo brasileiro bem escolarizado leu alguma obra dele ou um de seus contos. Escreveu várias histórias curtas e uma delas se destacou amplamente, O Homem Que Sabia Javanês, seu conto mais famoso, o melhor de todos, para muitos especialistas e leitores.
Curiosamente o famoso conto não está presente nesta coletânea dos melhores. Provavelmente porque é por demais conhecido e quase sempre se encontra incluído em diversas seleções de contos do próprio autor ou naquelas organizadas com vários autores. Mesmo gostando muito da história achei boa sua ausência porque já a li umas quatro vezes. Eis um resumo dos “melhores” desta coletânea, todos marcados em maior ou menor grau por ironia e crítica social:
A Biblioteca – O herdeiro de uma importante coleção de livros científicos e obras de ficção, funcionário público aposentado que jamais havia lido qualquer uma dessas preciosidades, não sabe muito bem o que fazer com os volumes todos. Seus filhos não se interessam pela coleção e mantê-la conservada é uma tarefa custosa e trabalhosa à qual vinha se dedicando por mais de quarenta anos. Um dia, depois de muito pensar, ele finalmente decide o destino que dará aos livros... ÓTIMO
A Nova Califórnia – Na pequena cidade de Tubiacanga aparece um desconhecido que convence alguns moradores ilustres do lugar acerca de seu poder de transformar ossos de defuntos em metal precioso. Depois, outros moradores, sabendo do caso, promovem uma verdadeira corrida do ouro ao cemitério local, insuficiente porém para satisfazer a cobiça de todos os habitantes da cidadezinha. E o cemitério vira uma praça de guerra... MUITO BOM
Porque Não se Matava – Dois amigos conversam num bar e um deles explica ao outro porque ainda permanecia vivo, já que o tempo todo pensava em se matar. Ele não via sentido algum na vida, assim como pensava Nietzsche, não mencionado no texto, um tanto “filosófico”. Não era a favor nem contra o suicídio, porém. A falta de dinheiro, que para alguns significava a morte, era o motivo pelo qual não se matara até então. E ele explica isso muito bem... BOM
Como o “Homem” Chegou – Conto mais longo da coletânea é uma narrativa dispersa que começa no Rio de Janeiro e vai até Manaus com a polícia em busca de um prisioneiro. Depois de quatro anos os policiais voltam trazendo o homem do título, um astrônomo de nome Fernando. Como sempre, Barreto faz uma crítica às instituições sociais, à sociedade como um todo, não apenas à polícia no caso, ficaria melhor dizer assim. Mas a história me pareceu confusa, complicada, difícil de ler e apreciar. NÃO GOSTEI
Cemitério – Conto lembra algumas histórias de Edgar Allan Poe. Inicialmente temos a descrição de um cemitério como um amontoado de jazigos, esculturas de mármore, vasos, cruzes etc., mas apresentando características humanas: túmulos vaidosos, pobres, antipáticos e assim por diante. Depois o narrador fica maravilhado diante de um túmulo de “límpidos mármores”, em que jazia uma jovem mulher e ele viaja em seus pensamentos inconfessáveis... MUITO BOM
O Único Assassinato de Cazuza – Melhor conto da coletânea, o mais simpático. Dois amigos de longa data conversam sobre a violência no país (antiga e infinita, como sabemos), crimes em geral, e um deles até mesmo cita o assassino de Crime e Castigo, de Dostoievski. Cazuza diz que prefere morrer a matar e confessa um crime cometido na infância, que o marcou profundamente. Revelar mais seria tirar o prazer de quem nunca leu o conto. ÓTIMO
Sua Excelência – Novamente uma história bastante crítica, desta vez sobre um homem público, um ministro de estado, orgulhoso e envaidecido. Aqui Barreto se vale de elementos fantásticos misturados aos reais para contá-la. Confrontado com uma situação extrema, diabólica, o ministro dá a conhecer sua verdadeira personalidade, sua fragilidade e a impossibilidade de ser o salvador da pátria que acreditava encarnar. BOM
Lido em 07 e 08/08/2020.