Travessuras da menina má

    Mario Vargas Llosa

    Alfaguara
    2013
    337 páginas
    11h 14m
    ISBN-13: 9788579621666
    Português Brasileiro
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    Carla Parreira25/06/2025Resenhou um livro
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    Travessuras da menina má (Mario Vargas Llosa). O livro, publicado em 2006, é considerado uma homenagem a "Madame Bovary" de Flaubert, embora as histórias não sejam diretamente relacionadas. A protagonista feminina, que desafia as convenções sociais, é semelhante a outras personagens literárias como Emma Bovary e Anna Karenina, que também enfrentam castigos por sua rebeldia. A narrativa não é uma história de amor convencional, mas sim um relacionamento tortuoso entre o protagonista e a "menina má", que reaparece em diferentes momentos da vida do narrador, mudando de nome e situação. Essa dinâmica lembra o reaparecimento de Jean Valjean em "Os Miseráveis", mas, ao contrário do personagem amado, a "menina má" é detestável, mesmo quando a narrativa tenta gerar empatia por ela. Eu analisei a complexidade da infância da "menina má", que é apresentada como uma justificativa para suas ações problemáticas na vida adulta. Existe a tendência da literatura em explorar histórias de personagens com passados tristes, questionando a ausência de narrativas sobre aqueles que superam dificuldades e se tornam pessoas boas. Vargas Llosa, apesar de seu passado revolucionário, se tornou um conservador, e "Travessuras da Menina Má" foi escrito após ele receber o Prêmio Nobel de Literatura em 2010, com "Conversa no Catedral" sendo o livro destacado durante a premiação. A obra se desenrola ao longo de cinco décadas, acompanhando a vida do protagonista que sonha em viver em Paris e se torna tradutor, aprendendo várias línguas e se desenvolvendo na profissão. A relação entre o protagonista e a "menina má" é marcada por um amor tortuoso, onde ela reaparece em sua vida em diferentes momentos, sempre buscando ascensão social e desdenhando de sua vida. O protagonista, apesar de suas conquistas, é tratado como "coisinha à toa" por ela, que o utiliza quando precisa, mantendo uma dinâmica de amantes ao longo de suas vidas. O livro contém cenas eróticas descritas de forma direta e sem romantismo, o que provoca uma reflexão sobre a representação da sexualidade na literatura. Essas cenas não são meramente gratuitas, mas servem a um propósito dentro da narrativa, contribuindo para a construção dos personagens e suas relações.narrativa, a relação entre o protagonista e a "menina má" se torna cada vez mais desgastante. O amor romântico que ele sentia no início se transforma em uma dinâmica de manipulação e desilusão. A "menina má" continua a mentir sobre sua origem e suas intenções, revelando-se uma personagem que busca constantemente ascensão social, utilizando os outros para alcançar seus objetivos. O protagonista, por sua vez, se torna um observador de sua própria vida, percebendo que suas tentativas de se conectar com ela são frequentemente frustradas. Através de suas interações, fica evidente que a "menina má" não se importa verdadeiramente com a política ou com as causas que diz apoiar; sua militância parece ser apenas uma fachada para conseguir o que deseja. O protagonista, ciente de suas mentiras, evita confrontá-la diretamente, mas a cada reencontro, ele se vê preso em um ciclo de esperança e decepção. A narrativa se desenrola em diferentes cenários, incluindo Paris e Tóquio, onde a "menina má" aparece em situações cada vez mais complicadas, como casada com um gangster japonês, o que acentua a ideia de que sua busca por status e segurança é repleta de riscos. A obra possui elementos autobiográficos, refletindo as experiências de Vargas Llosa com mulheres em sua juventude, embora não se possa afirmar com certeza se a "menina má" é baseada em uma pessoa real. A relação entre os dois personagens é marcada por um padrão de amor e abandono, onde ele sempre acaba se apaixonando novamente, mesmo sabendo que ela o deixará em uma situação difícil. Essa repetição de ciclos amorosos e a constante manipulação da "menina má" criam uma narrativa que, embora cansativa, revela a complexidade das relações humanas e a busca por identidade e aceitação em um mundo repleto de ilusões. A "menina má", mesmo após ter sido resgatada e cuidada, revela-se uma figura que não consegue se desvincular de suas mentiras e do ciclo de dependência que criou. A relação deles, inicialmente marcada por um resgate e um novo começo, logo se transforma em um novo tipo de prisão emocional para o protagonista, que se vê cada vez mais consumido pela necessidade de agradá-la e de mantê-la ao seu lado. Quando ela decide deixar um bilhete e partir, o impacto é devastador. Ele se sente traído e abandonado, levando-o a um estado de depressão profunda. A fragilidade emocional dele se intensifica, resultando em problemas de saúde, como um AVC, que simboliza a culminação de seu sofrimento. A narrativa explora a complexidade da relação entre amor e dor, mostrando como a "menina má" não é apenas uma figura sedutora, mas também uma força destrutiva na vida do protagonista. Enquanto isso, a amizade com o casal de médicos e a criança vietnamita se torna um ponto de luz em meio à escuridão. A interação entre a "menina má" e a criança, que começa a falar graças à sua presença, traz um contraste interessante, evidenciando que, apesar de suas falhas, ela ainda possui a capacidade de gerar conexões significativas. No entanto, essa nova fase também é marcada por complicações, já que a necessidade de documentos legais para que ela possa se estabelecer corretamente na sociedade a leva a envolver ainda mais pessoas em suas trapaças. A proposta de casamento surge como uma solução temporária para a regularização da situação dela, mas a fragilidade da relação é evidente. O protagonista, mesmo ciente das manipulações, continua a se deixar levar pela esperança de que ela mudará. A narrativa se aprofunda na psicologia dos personagens, revelando como a "menina má" se torna um símbolo de desejo e destruição, enquanto o protagonista se transforma em um reflexo de amor não correspondido e de autoanulação. A história avança, mostrando que, mesmo após a partida dela, as cicatrizes emocionais que ele carrega são profundas e duradouras, levando-o a questionar sua própria identidade e valor. Após o AVC, sua capacidade de ser intérprete se reduz, levando-o a se dedicar apenas a traduções literárias. A relação com a "menina má" se torna um jogo de idas e vindas, onde eles brigam e se reconciliam repetidamente. O grande castigo dela não é apenas o sofrimento que impõe a si mesma, mas a doença grave que contrai em Tóquio, que a leva a retornar em um estado debilitado. Ela oferece a ele uma herança, incluindo propriedades e ações, mas ele hesita em aceitar, mesmo sabendo que ela precisa de ajuda. O desfecho da história é trágico, com ela adoecendo gravemente e ele cuidando dela nos últimos meses de vida. A narrativa revela um relacionamento marcado por obsessão e dependência, onde ele se sente vivo apenas na presença dela, mesmo reconhecendo que ela é uma figura destrutiva. A vida dele é repleta de desgraças amorosas, incluindo traições de outras parceiras, o que reforça a ideia de que ele tem um "dedo podre" para relacionamentos. A dinâmica entre eles é complexa, com ela sempre retornando quando precisa, sabendo que ele estará lá para cuidar dela. Ele se entrega completamente, gastando seus recursos para garantir seu bem-estar, o que revela uma abnegação que beira a autoanulação. A repetição da ideia de que ela, mesmo aos 48 anos, ainda é deslumbrante, serve para enfatizar a sua beleza duradoura, contrastando com o seu estado final de deterioração. A história, embora esquisita e repleta de coincidências, proporciona uma experiência catártica, levando o leitor a refletir sobre a natureza das relações de amor e dependência. Vargas Llosa constrói uma narrativa que, apesar de não ser agradável, oferece um olhar profundo sobre a obsessão e a necessidade de ter alguém que, mesmo sendo nocivo, se torna essencial para a vida do protagonista. Ele poderia ter levado uma vida tranquila, viajando e trabalhando em diversos países, mas opta por uma existência marcada pela turbulência que a "menina má" traz. Essa dependência dela se torna um motor para sua vida, que, sem ela, seria monótona e sem graça. O livro provoca uma reflexão sobre relacionamentos tóxicos, onde a aceitação de comportamentos destrutivos se torna um padrão. A narrativa é desconcertante, lembrando obras como "1984", onde o leitor sente um alívio ao terminar, mas também uma inquietação. A presença da "menina má" é como um lembrete constante de que ele está preso em um ciclo de aceitação de suas falhas, esperando que ela mude. A escova de dentes que ela deixa em seu apartamento simboliza essa conexão persistente, um lembrete de que ela pode voltar a qualquer momento. Vargas Llosa utiliza essa relação para expor a fragilidade das escolhas humanas e a tendência de se apegar a pessoas que trazem mais dor do que alegria. A comparação com personagens como Ana Karenina e Madame Bovary é pertinente, mas a "menina má" se destaca por sua índole realmente negativa, tornando difícil qualquer defesa de suas ações. O protagonista, mesmo reconhecendo suas próprias dificuldades, se vê preso a essa dinâmica, incapaz de aprender com os erros do passado. A irritação que os personagens provocam no leitor é um reflexo da frustração com a falta de crescimento e aprendizado, levando a uma análise crítica sobre a aceitação de comportamentos prejudiciais. Embora o livro tenha seus méritos e seja considerado uma obra importante da literatura latino-americana, a experiência de leitura pode ser desafiadora e desconfortável. A presença de cenas mais quentes pode atrair leitores de romances, mas a complexidade emocional e a natureza irritante dos personagens podem afastar outros.

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