A Comédia Humana - Volume XIV (A Comédia Humana #XIV) - Estudos de Costumes - Cenas da Vida Rural

    Honoré de Balzac

    Globo
    1992
    458 páginas
    15h 16m
    ISBN-10: 8525007013
    Português Brasileiro

    Volume 14 (quatorze) da monumental "A Comédia Humana", Balzac trata das Cenas da Vida Rural francesa. Este volume contém os romances "O Cura da Aldeia" e "O Lírio do Vale".

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    Clayton de Souza04/11/2020Resenhou um livro
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    A comedia humana inteira

    A Comedia Humana inteira antes dos 40. Vol.XIV Cenas da vida rural Estudos de costumes Dando prosseguimento e desfecho às cenas da vida rural, iniciadas no volume anterior, Balzac traz dois romances cuja ambientação se dá na província. Região rural onde, como já se viu anteriormente, a "fauna humana" representa outro tipo de "comédia", em meio às tensões sociais entre proprietários de terra e camponeses, e que também protagoniza cenas de inegável valor humano, com as condições por vezes precárias de vida, longe da grande capital, onde a existência se agita em mil atrativos e possibilidades de ascensão. No romance O cura da aldeia, o autor dá continuidade a sua utopia social particular, já antevista em O médico rural, embora aqui, diferente da obra anterior, tem-se propriamente um enredo: Verônica Sauviat, filha de comerciantes bem-sucedidos e avarentos da região do Baixo Limoges, casa-se com o rico e não menos avarento sr. Graslin, banqueiro local. Feita então sra. Graslin, não tarda a jovem moça a perceber que seu casamento nada teve a ver com amor, e passa então a buscar refúgio no catolicismo fervoroso herdado de seus pais, bem como em seu processo de autoinstrução na mais fina literatura mundial; contudo, uma história de assassinato envolvendo um velho agiota da região, sua criada e um misterioso jovem hão de mudar os rumos da vida de Verônica... Bem, mas e o cura do título? Inicialmente era intenção do autor construir esse obra como modelo exemplar de um ideal religioso em torno desse personagem, mas a figura de Verônica foi se agigantando na narrativa. O cura fica então em segundo plano, mas é figura catalisadora das ações do romance: é ele que é convocado para conseguir a confissão e conversão da alma perturbada do jovem a quem se atribuem os assassinatos (naturais que são os dois da outrora perigosíssima região de Montégnac, mas que moralmente foi resgatada pelas ações do cura); é a ele também que a infeliz e atormentada Verônica irá recorrer após o desenlace do processo, e se interessará pela precária região onde congrega, e feita dona de grande parte dali, será por instigação do nobre cura que ela mobilizará forças e talentos diversos para contribuir para a elevação econômico-social de Montégnac; por fim, será esse homem também o confessor dela e estará a seu lado sempre, até quando, cheia de culpa, confessará diante da paróquia tudo o que lhe corrói o íntimo. Esse esforço da senhora Graslin por erguer Montégnac, além de se assemelhar ao empreendido por Benassis, o médico filantropo de O médico rural, também esboça o papel que o catolicismo tem na ordem social da sociedade idealizada por Balzac. Como se pode ver aqui - numa conversa envolvendo um pequeno círculo de figuras reunidas por Verônica - pela boca do próprio cura, o catolicismo é a peça institucional central para que, a despeito de todo o avanço socioeconômico da França, a estabilidade moral se mantenha. É inclusive dessa religião que pode emergir a verdadeira filantropia (palavra sempre tratada ambiguamente por Balzac): é a culpa originária dos pecados enraizados no íntimo da sra. Graslin e de Benassis (O médico rural) o fomento para ações de autêntica relevância filantrópica. A respeito do ideário do autor, aqui Balzac uma vez mais desfila (sempre pela boca de seus personagens) seu ideal conservador, cuja expressão última se dá na supracitada reunião dos benfeitores de Montégnac. Ali cada representante de uma casta social diversa (jurista, banqueiro, religioso etc.) assesta um golpe contra a Revolução Francesa, bem como contra a Revolução de Julho (um capítulo inclusive é nomeado "A Revolução de Julho julgada em Montégnac"). Para se ter uma ideia, são considerações assim que ganham as páginas a certa altura (e a total aprovação do autor): "A Inglaterra deve sua existência à lei quase feudal que atribui as terras e o solar da família aos primogênitos. A Rússia está alicerçada no direito feudal da autocracia. Por isso, essas duas nações estão hoje numa via de progresso espantoso". Tudo por conta da lei de primogenitura que, para desgosto de Balzac, caiu na França pós-Restauração. O banqueiro lamenta que terras preciosas tenham seu lucro e integridade abaladas pela ação estagnante dos camponeses que ali (sobre)vivem. Enfim, dá-se largas à visão do autor que faz dos personagens seus porta-vozes ideológicos, seus títeres, o que nem sempre é bom em termos estéticos, ainda mais quando não se dá voz ao contraditório, o que Bakhtin denomina polifonia. Balzac também se estende prolixamente em considerações e descrições geográficas, ainda que seja importante esse aspecto dramaticamente; assim também em questões secundárias, como a história do desiludido engenheiro parisiense Gérard com a máquina pública, que Balzac usa para criticar uma vez mais a aptidão da França em desperdiçar seus talentos (como o fez em outras obras, como em Z.Marcas). No entanto, é inegável o interesse do romance justamente por todos esses elementos sociais, e por outras questões curiosas, como os interesses mesquinhos da igreja em protelar uma execução a fim de não deixar triunfar perante o povo a descrença na figura de um condenado. Conhecemos também na obra o irmão do famoso Rastignac que, diferente do irmão dândi, seguiu o caminho clerical. A se descontar os senões citados e o hiperbólico sentimentalismo romântico que adorna certos pontos-chave do romance, O cura da aldeia é obra capital para se entender o espírito balzaquiano. E, talvez, a mais nebulosa em termos de desenlace narrativo. Em nenhuma outra obra (até aqui) o autor revela pouco ao leitor, e isso se dá pelo interior obscuro da sra. Graslin. O lírio do vale é o romance que dá seguimento ao volume, a essas cenas rurais e, ao mesmo tempo, dá desfecho a ambos. Quando eventualmente me deparava com menções a esse romance, sempre criava a imagem mental de uma trama romântica envolvendo uma virgem juvenil do campo, o que em termos se assemelha à impressão de Monteiro Lobato, que confessa em uma carta a certo colega o desânimo de iniciar sua leitura, dada a pieguice do título. Na mesma carta, no entanto, Lobato se extasia com Balzac, comparando-o a Shakespeare que, segundo ele, seria o "gênio da alma antiga"; já o autor francês seria o "gênio da alma moderna". Tal avaliação é suscitada pelo Lírio do Vale. A obra a justifica? Eis uma questão complexa que envolveu muita controvérsia na época de seu lançamento, onde o romance foi quase que totalmente atacado pela crítica. Talvez nenhuma outra obra balzaquiana tenha suscitado tais extremos... No romance, sob a forma estranha de uma missiva longuíssima (a obra passa das duzentas páginas), endereçada a Natália de Manerville (a jovem pródiga e traidora de O contrato de casamento), Félix de Vandenesse (o marido quase traído de Uma filha de Eva, romance posterior a esse), conta a história de seu primeiro e mais avassalador amor, pela sra. Mortsauf, jovem esposa de um conde e mãe de dois filhos. Félix a conhece numa recepção festiva e, num momento de arrebatamento, a beija furiosamente. Posteriormente a reencontra por ocasião de uma viagem que faz ao interior, na região da Touraine, despachado que foi por sua família, que sempre o preteriu em favor de seu irmão Carlos (o amante da Mulher de trinta anos). Passa assim alguns meses em Fraspele, propriedade de um burguês "aristocratizado", vizinha ao castelo de Clochegourd, residência do conde de Mortsauf e sua bela esposa. O jovem passa a frequentar o casal, conquista a afeição por sua origem aristocrática, mas também por sua juventude e estima por seus filhos. E vai alimentando sua paixão pela sra. de Mortsauf, em meio a um ambiente tóxico de relacionamento entre o casal, que revela um conde hipocondríaco, irascível e beirando a insanidade, de um lado, e uma mulher submissa, administradora competente da propriedade e virtuosa a ponto de resistir às investidas de Félix, do outro lado; ainda sim cria um vínculo íntimo com ele, dada a semelhança entre suas infâncias infelizes. Contudo, a Restauração Monárquica de 1815 e posterior retorno de Napoleão (os famosos 100 dias) haverão de separar Félix do convívio em Clochegourd, para tristeza da condessa, e definirá o futuro do jovem como íntimo do rei Luís VIII, o que lhe proporcionará um futuro brilhante em Paris e o desejo, em especial, da bela inglesa Lady Dudley, o que desesperará a pobre sra. Mortsauf. O lírio do vale conduz assim uma narrativa idealizada por Balzac com um duplo fim: dar resposta à crítica das leitoras por sua pintura quase sempre depreciativa no aspecto moral da mulher, e ao seu eterno desafeto, o "príncipe da crítica" Saint-Beuve, que escreveu um romance chamado Volúpia, e no qual Balzac vê uma oportunidade de desqualificá-lo, escrevendo uma história idêntica, mas que pretendia ser superior. Às suas leitoras, Balzac busca erigir a figura notável de Henriquetta de Mortsauf, cuja interioridade é admirável, a despeito de certos rasgos românticos que tornam o movimento interior de seus sentimentos e motivos agoniante. Por outro lado, Félix de Vandenesse também contribui nesse sentido, com seu amor platônico, cujo derramamento nada deve às páginas mais melodramáticas dos folhetins românticos. A obra padece assim de cenas pintadas com um gosto duvidoso, na tinta hiperbólica do sentimentalismo que carrega excessivamente nas cenas. Paulo Rónai cita, a título de exemplo, as lágrimas da infeliz condessa bebidas pelo jovem amante. A inverossimilhança tinge a narrativa: a condessa mostra-se estupenda no conhecimento mundano, orientando seu admirador em sua ascenção social, mas estranhamente ignorante quanto ao amor; Félix justifica a escrita da obra (da qual é o narrador) a Natália de Manerville tencionando conseguir seus favores amorosos, e assim produz a estranha contradição de endereçar a uma mulher casada uma narrativa que exalta a fidelidade marital de uma dama a quem santifica pela castidade e exemplo de vida (inclusive a obra termina com uma carta de Natália em resposta que se configura o ataque mais forte que essa obra e a contradição mencionada poderiam receber). Além dessas, há algumas outras inconsistências e adiposidades. Enfim, O lírio do vale, a despeito desses senões, possui grande valor advindo dessa vida interior dos personagens e das regras que conduzem a existência social, seja rural, seja urbana. É um romance que propicia ainda maior interesse aos leitores da Comédia Humana pelo fato de por em relevo a figura de um de seus protagonistas, um dos irmãos Vandenesse, nos deixando aprofundar sua história e entendendo suas transformações sociais futuras, inclusive esclarecendo por que Natália de Manerville e Lady Dudley se tornarão inimigas de Felix futuramente, incitando sua esposa, protagonista de Uma filha de Eva, a trai-lo com outro habitué da Comédia, o escritor Nathan. O volume XIV encerra assim as cenas da vida rural com duas obras que introduzem a temática amorosa, num contexto rural em que o elemento social dá ensejo ao autor de expor suas críticas ao liberalismo burguês crescente na França, ao mesmo tempo que suas teses reformistas sociais e morais para reconduzir o país à vanguarda das potências europeias. São obras de grande interesse estético, além de histórico, ainda que suas idiossincrasias não encontrem eco no leitor e mundo modernos. São, enfim, a continuidade necessária desse vasto universo ficcional.

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