Jubiabá, romance de Jorge Amado escrito entre 1934 e 1935, tem como protagonista Antônio Balduíno, menino pobre nascido no morro do Capa-Negro, em Salvador. Ao longo do romance, acompanhamos as diferentes fases de sua vida: quando vivia nas ruas, ainda criança, cometendo pequenos delitos, agregado na casa de um comendador, malandro, boxeador, trabalhador nas plantações de fumo, artista de circo e estivador. Qualificado de magnífico por Albert Camus, Jubiabá foi adaptado para o cinema por Nelson Pereira dos Santos, para o teatro, rádio e televisão e quadrinhos por Spacca, um dos maiores artistas das HQs nacionais.
Jubiabá (Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa #19) -
Jorge Amado
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E se Dom Quixote fosse negro macumbeiro, malandro e conquistador, e Sancho Pança fosse o pé no chão do herói na Bahia de todos os santos? E se a jornada de um Ulisses baiano fosse a própria sobrevivência nessa Odisseia que é a busca pelo seu próprio ABC para contar sua história? Jorge Amado não perde em nada para Cervantes, Homero ou qualquer outro ao apresentar seu herói, e em uma Bahia de pretos velhos, macumbeiros, estivadores explorados, malandros de rua e contadores de história, surge uma figura que nos cativa e não precisa nem ser seu próprio narrador para fazer isso; o negro Antônio Balduino é negro valente, é dono de ABC e não precisa contar sua história pois já fez seu nome e deixou pro povo contar. Como parte de uma fase do autor em que a militância e o peso das injustiças sociais ganha voz dentro da escrita, Jubiabá apresenta dois personagens que são referência dentro de todo o cenário e contexto do livro, são retrato e personificação dessas faces do texto em um alguém, são eles o negro Antônio Balduíno e pai Jubiabá. Enquanto um representa a realidade de um povo que nasceu pra vencer as muitas adversidades ao longo da vida e somar histórias para contar, o outro representa a oralidade dessas histórias e a riqueza delas em meio a todas as transformações de um período. A presença de um boa vida marginalizado por natureza e com grande tendência a fazer todas as escolhas que fez, com a referência do cangaço e do ABC de homens corajosos que é contado em rodas onde o morro todo se reúne para ouvir, contrasta com a presença do pai de santo centenário e incansável que anda o morro todo e sempre está presente onde o morro está. Em uma analogia, é como se a história do morro, do povo, da plebe, estivesse presente o tempo todo para ser testemunha, referência e presença ilustre. Jorge Amado nos ambienta através da trajetória de Antônio Balduíno, é com ele que vemos a cidade escurecer e se tornar a sedutora Salvador que mais tarde abraça e acolhe o jovem Baldo, com ele vemos o menino apaixonado virar menino de rua, é com ele que vemos o malandro conquistador virar boxeur e com ele vemos a queda de Baldo, o derrubador de brancos, vencido não por seu adversário mas pela desilusão de perder aquela a quem amava sem nem mesmo a ter. Com Baldo conhecemos o refúgio de estivadores na Lanterna dos afogados, conhecemos a tristeza das mulheres nas plantações de fumo, conhecemos a dura realidade do circo, conhecemos a greve e nela mais uma face de tantas misérias que nos são apresentadas com Antônio Balduíno no centro do palco. Pai Jubiabá por sua vez não dá nome ao livro à toa, sempre presente ele aparece como quem não é vencido nem mesmo pelo tempo, ou por qualquer moléstia, nunca alheio mas sempre como guia e espelho, representando talvez o próprio tempo que a tudo assiste mas que acompanha o curso de feitos dignos de serem contados sem que precise interferir diretamente, apenas sendo respeitado por ser quem é. Uma menção honrosa cabe a Gordo, amigo fiel de Baldo porém mais sensato e religioso, que sempre larga tudo pra seguir o amigo desde que eram donos da cidade pedindo esmola na rua, consegue em meio a tanta danação conservar seu bom coração. Com mais profundidade julgo como um dos personagens mais fortes dentro do livro justamente por essa resiliência em ter um bom coração, mesmo sendo motivo de pilhéria e risada. O gordo é bom, a gente que é ruim. Através da trajetória de Baldo vemos as camadas da injustiça e miséria em vários pontos onde o autor a expõe, e o negro que vence todas elas triunfa resistente, e quando não com sua gargalhada, sempre a buscando como se fosse parte de sua identidade enquanto lutador de sua vida e de sua sina. A crítica sempre presente ora foca no abuso de meninas que são quase crianças no meio da degradação moral entre homens sem mulheres, ora foca na decadência da prostituição que prejudica mais do que somente a dignidade dessas mulheres, ora foca na futilidade de uma camada mais abastada da sociedade que se aliena à luta do trabalhador por seus direitos. O próprio preconceito de Baldo construído ao longo de sua vida já aponta para a forma errada de se olhar essa classe trabalhadora que aos olhos de quem venera o cangaço e sua luta contra a injustiça, não percebe a necessidade de se abraçar a causa de tantos que já perderam a força para se rebelar e simplesmente aceitam a sina que lhes coube; mais uma vez em uma analogia o mestre Jorge Amado nos aponta que a dor dos outros não dói. O herói baiano é diferente de Dom Quixote, Ulisses, Hamlet, e até mesmo é bastante questionável como herói mas isso não é culpa de Jorge Amado nem de Baldo, pois não se pode colher flores em terra seca. Em defesa do autor prefiro ler e abordar como um ABC, um relato de uma vida, uma história dessas que se conta na frente da casa de Tia Luiza onde até Pai Jubiabá aparece pra ouvir. Diferente do comodismo de questionar personagens sem ter me inserido na história, prefiro assim pois através de uma trajetória vitoriosa a sua maneira, a gargalhada do malandro sempre está lá, o malandro que não se deixa abater também, bem como o lutador que conhece o peso de sua mão quando decide entrar na briga. Estamos falando de um herói negro e pobre, órfão do morro, filho do cangaço e da injustiça, livre por natureza, estamos falando de um herói que cabe dentro do mais puro realismo que um autor pode abordar. É a história de Baldo, do morro do Capa Negro, de Pai Jubiabá, da Bahia de todos os santos, é uma história que vale a pena contar.
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