Cadeira de balanço -

    Carlos Drummond de Andrade

    Companhia das Letras
    2020
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9788535934250
    Português Brasileiro

    Lançado em 1966, Cadeira de balanço é o terceiro volume de crônicas de Carlos Drummond de Andrade. Nome incontornável quando o assunto é poesia, o escritor se revelou exímio cronista, capaz de extrair humor e profundidade de situações banais. "Cadeira de balanço é móvel da tradição brasileira que não fica mal em apartamento moderno. Favorece o repouso e estimula a contemplação serena da vida, sem abolir o prazer do movimento." É assim que Carlos Drummond de Andrade define este volume. A cadeira de balanço, como se vê, não é apenas o lugar mais desejável para se apreciar esta reunião de crônicas. É também - e principalmente - a imagem perfeita para sintetizar o gênero: pressupõe uma atmosfera coloquial e relaxada, ideal para se descansar, mas também para refletir sobre o que se passa ao redor. Nesta mistura de conto, diálogo, caso, anedota, reflexão e nota, o leitor observa o mundo através dos olhos do poeta, que foi capaz de imprimir -- seja na poesia, seja na prosa -- sua sensibilidade e seu estilo inconfundíveis. Reunidas, estas crônicas acabam por se tornar o retrato de uma época, tendo como pano de fundo um efervescente Rio de Janeiro. Posfácio de Sérgio Rodrigues.

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    Izabelle Jaques Rodrigues30/07/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O Gênio das Palavras

    CADEIRA DE BALANÇO Cadeira de Balanço é um livro de 1982 com contos e crônicas inéditos em livros. O livro, por ser antigo, torna-se um grande tesouro, já que há diversos títulos que não se encontram no Google, provando que existem elementos da literatura que não são superados pelas mídias. O mesmo ocorre com o significado de algumas palavras que aparecem no decorrer da leitura. Outro ponto a cerca da idade do livro, é que durante diversos contos é possível observar uma vivência típica dos anos oitenta, que diferem muito dos anos atuais, trazendo reflexão e até humor. Precisamos falar da escrita de Drummond, é impressionante como ele tem o dom de transformar situações extremamente simples do cotidiano em poesia, e muitas vezes, emociona o leitor, como quando descreve uma simples gripe, ou quando te faz procurar no mercado livre uma cadeira de balanço para comprar. No início do livro, no estudo de Angela Vaz Leão, conseguimos compreender as divisões da da leitura e os eixos dominantes de cada capítulo. Diante disso, também fiz meus apontamentos. Histórias que acabam antes de começar → Histórias bem curtas que apresentam ambiguidade, humor e convidam à reflexão. Com destaque ao Caso do chá, Caso da Secretária e Caso do Arroz. Vida de qualquer um → Crônicas que trazem aspectos e sentimentos da vida do autor. Com destaque a Estar Gripado, onde Drummond define de maneira extremamente poética, uma simples gripe. Outro destaque é o conto Compra uma cadeira, que nos faz refletir sobre a necessidade de se ter uma cadeira de balanço, mesmo não tendo motivo nenhum para tal compra. De fato, a leitura que mais me tocou nessa coletânea, é a crônica ou conto, dividida em duas partes: Vende a Casa, Assiste à Demolição. Uma leitura que nos mostra de maneira poética e um pouco barbára, as finitudes da vida. “A sala, o pequeno escritório, está vendo? Tudo resistiu mais do que o morador. Não queria acabar, e decerto, chegando a hora, me enterraria” Figuras que a gente encontra → Diz respeito a figuras humanas e suas complexidades. Há momentos em que fica muito claro sobre quem Drummond está falando, outros momentos não há essa clareza, talvez porque não se trate de alguém especificamente. Na estrada, nitidamente, se refere a Garrincha. Sobre os contos que se destacam: No Aeroporto diz respeito ao bebê Pedro, e as complexidades de se ter um bebê em nossas vidas; Na Lotação diz respeito ao que parece nos incomodar, mas a verdade é que já nos acostumamos com os incômodos da vida; Na discoteca faz com refletimos sobre as alegrias que o dinheiro não pode comprar; No elevador a discussão é sobre as pessoas que nos cercam e podem fazer a diferença. Cariocas → Diz respeito às características e vivências do povo da cidade do Rio de Janeiro, denominado Unanismo Carioca. Destaco os contos A Mãe e o Fogão, que nos faz refletir sobre o que realmente tem importância nas nossas vidas; Lacunas de Copacabana, que revela a hipocrisia da classe média que se basta com apresentações fúteis que não revelam a verdadeira face da sociedade; A Sentença do Senhor, onde o autor nos mostra que a verdadeira bondade está no simples; A Abobrinhas, conto bem humorado sobre as ciladas do dia-a-dia; A contemplação do Arpoador, onde o autor transforma em poesia escrita, a poesia que é o pôr do sol na praia do Arpoador, de maneira sensível e tocante; A Viajante, importante para refletir sobre o papel da mulher em uma sociedade patriarcal. Política Mais ou Menos → Talvez a coletânea menos tocante do livro, porém extremamente reflexiva, e que nos faz pensar como certos políticos e suas posturas permanecem as mesmas mesmo quarenta anos depois da publicação deste livro. Destaque para os contos Vamos Cassar? e Qual é mesmo a sua opinião, que demonstra como a política age de acordo com o que é conveniente a ela; Sim ou Não, conto sobre o momento político Diretas Já. Os Marcados → Aqui Drummond homenageia pessoas que fazem valer a fé na humanidade, como Aleijadinho, Heitor Villa Lobos, Cândido Portinari, Mário de Andrade, Alécio de Andrade, Anibal Machado, Álvaro Moreyra, Afonso Eduardo Reidy, Orris Soares, Emanuel Dias e Cecília Meireles. Destaco O Compositor e Seu Festival (Heitor Villa Lobos); O Companheiro da Juventude (Mário de Andrade), o qual nos emociona por falar da ausência do autor, descrevendo vazios causados pela sua morte; O Instrumento Musical (Cecília Meireles), o qual, de maneira emotiva e poética descreva a poetisa e sua obra. Correspondência Particular → Três contos, um voltado ao pai, outro à filha e outro à mãe. A carta A Um Senhor é extremamente emocionante, sobretudo para leitores que perderam alguém tão importante como o pai. Drummond consegue de maneira maestral descrever a dor da ausência, valorizando todos os momentos da presença. Particularmente foi a leitura que mais me tocou e me sensibilizou. “Tudo ficou reduzido ao mínimo indestrutível, à relação calada de dois seres, sem interferências de espaço e tempo.” EXTRA - O Caso dos discos voadores no Leblon → Trata-se de uma história bizarra a respeito de um Marciano e uma Saturnina que tem um final que nos remete a reflexão e um aspecto cômico. Por se tratar de contos, para a leitura fluir, sugiro intercalar o livro com outras leituras com menos complexidades, já que Carlos Drummond de Andrade não é apenas um livro, é uma experiência, uma vivência necessária de imersão e sensibilidade. É fácil cair na armadilha de classificar o livro como tedioso, se você não viveu todas as facetas da leitura, permitindo se emocionar. Enfim, Drummond é um gênio das palavras.

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