A cruzada das crianças é uma pequena obra-prima do francês Marcel Schwob (1867-1905), o "escritor dos escritores", admirado por nomes como Oscar Wilde, Valéry, Borges e Roberto Bolaño. Publicado originalmente em 1896, o livro recria poeticamente a lendária cruzada das crianças de 1212 rumo a Jerusalém, a partir dos relatos de pessoas ligadas ao evento, incluindo um goliardo, um místico árabe, um leproso e os papas Inocêncio III e Gregório IX. Cada um dos oito capítulos traz uma versão diferente daquela trágica jornada rumo ao Santo Sepulcro, em narrativas conduzidas pelo texto cativante de Schwob ― “angelical e diabólico”, segundo Noemi Jaffe ―, apresentado aqui na bela tradução de Milton Hatoum.
A cruzada das crianças -
Marcel Schwob
Oito Relatos
Determinar o que é fato ou lenda sobre a Cruzada das Crianças tem sido um desafio para os historiadores. Ao que tudo indica, em 1212, ocorreram duas movimentações de pessoas na França e na Alemanha cujas semelhanças fizeram que mais tarde fossem reunidas numa única história baseada na crença de que o Santo Sepulcro só poderia ser conquistado por crianças, pois, isentas de pecados, estariam protegidas por Deus. A bem da verdade, uma boa desculpa para justificar os fracassos anteriores para retomar Jerusalém — sob domínio turco — e reunificar o mundo cristão, dividido desde o Cisma do Oriente. Pesquisas recentes sugerem que essa cruzada não seria composta apenas por crianças, mas também por camponeses, mendigos e doentes. Inclusive, elas poderiam ser mais velhas do que se supõe, pois a palavra latina “pueri”, mencionada nos documentos antigos, teria sido mal traduzida, já que na Idade Média, ela era empregada para crianças e jovens. Como esperado, o desfecho dessa empreitada foi funesto. Muitas não conseguiram sequer chegar ao Mar Mediterrâneo, morreram de fome, exaustão e doenças durante a caminhada. Em contrapartida, aquelas que conseguiram embarcar, ou morreram afogadas durante a travessia marítima, ou foram vendidas como escravas, ao chegarem à Terra Santa. No final do século XIX, o francês Michel Schwob (1867 -1905) debruçou-se sobre essas informações para escrever uma pequena obra-prima que retrata a busca de um sentido para a vida mediante uma peregrinação que, privada de razão, foi guiada pela crença na misericórdia divina como recompensa terrena. Sem devoção nem cinismo, o escritor apresenta oito relatos fictícios que proporcionam uma perspectiva patética e até alucinatória para o assunto. O primeiro é de um goliardo que afirma ter visto essas crianças. O próximo é de um leproso que não só as viu, como conversou com um menino; já o Papa Inocêncio III, alarmado com os acontecimentos, clama pela piedade de Deus: “Não deixai que haja sob Inocêncio um novo massacre dos Inocentes”. Em seguida, entram em cena três pequenos cruzados que, assombrados por estranhas vozes, anunciam a esperança por dias melhores. Eles cedem o posto para um pragmático escrevente que planeja embarcar o quanto antes essa “horda de estrangeiros” para a Terra Santa. O sexto é um calândar (monge maometano) que afiança que a maior parte do grupo, ao desembarcar, foi comprada pelo Califa. Nele, está Allys, a guia de um menino cego que deseja como recompensa pelo seu sacrifício, poder enxergar O Senhor. Encerrando o ciclo, o Papa Gregório IX, sucessor de Inocêncio III, lamenta o que houve. Após implorar ao Mar Mediterrâneo que lhe devolva “suas crianças” e acusá-lo de “devorador”, ele o absolve e lhe suplica pela própria absolvição por erros que igualmente ignora. Por fim, o branco — associada à pureza no ocidente e ao luto no oriente — atavia a história. Schwob menciona abelhas brancas, dentes brancos, homens brancos, crianças brancas carregando cruzes brancas, ondas brancas, vozes brancas... Essa cor também orientou a criação da capa numa edição impecável, que mais uma vez comprova o cuidado da Editora 34 com suas publicações. Um cuidado que engloba as ilustrações de Fidel Sclavo, a irrepreensível tradução de Milton Hatoum e os extras: prólogo de Jorge Luis Borges, texto de orelha de Noemi Jaffe e boa biografia do escritor. Boa leitura! 👦 🌊 👧
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