Contos de Eça de Queiroz -

    Eça de Queiroz

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    2014
    380 páginas
    12h 40m
    ISBN-10: B004TVNI9Q
    Português

    "O melhor espectáculo para o homem será sempre o próprio homem." Publicados em diversos jornais e revistas ao longo da sua carreira, como contribuidor jornalístico, e reunidos pela primeira vez em 1902, os “Contos de Eça de Queirós” são o reflexo do trabalho do autor como contista. Com a excepção do conto “Civilização”, que se apresenta como uma critica à civilização burguesa, industrial e materialista, e mais diretamente às suas invenções científicas, a maioria destes contos não contêm um enfoque crítico social, patente na quase totalidade dos romances Queirosianos. Queirós usa a forma do conto para dar azo ao um aspeto mais criativo da sua escrita, explorando temas históricos, de reflexão moral e até fantásticos, emulando assim outros escritores que Queirós muito apreciava como o inglês Walter Scott, o dinamarquês Hans Christian Andersen e o americano Edgar Allan Poe. Eça diferencia o Conto do Romance sobretudo no estilo, onde o enredo é simples e linear, não analítico. Sobre este propósito escreveu o autor sobre o Conto: “No conto tudo precisa de ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos, apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida”. A obra reune os seguintes contos: “Singularidades de uma Rapariga Loura”; “Um Poeta Lírico”; “No Moinho”; “Civilização”; “O Tesouro”; “Frei Genebro”; “Adão e Eva no Paraíso”; “A Aia”; “O Defunto”; “José Matias”; “A Perfeição”; “O Suave Milagre”; “Outro Amável Milagre”; “O senhor Diabo”; “Memórias de uma Forca” e “Um Génio que era um Santo”. Incluímos ainda o Conto “O Milhafre”, que não se encontrava na edição de 1902.

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    Pablo Pax04/01/2025Resenhou um livro
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    José Matias

    José Matias Conta-se que Machado de Assis (1839-1908) invejou e admirou apenas um seu contemporâneo - Eça de Queiroz (1845-1900), em especial um conto escrito pelo português intitulado 'José Matias' (1897). Trata-se da estória de um homem apaixonado por uma mulher chamada Elisa; ele era tão apaixonado por ela que passou a vida apenas a admirá-la, mesmo tendo oportunidades de namorá-la e até casar-se com ela. Passou anos a segui-la, a avistá-la de longe, a contemplá-la, como um jardineiro faz com uma flor ou um visitante a contemplar obras num museu, até que um dia a morte chega (não direi de quem). Muitos veem neste conto uma releitura do amor cortês da época medieval, porém Eça de Queiroz, realista que era e filho de toda uma geração marcada pelo livro 'Madame Bovary' (1856), é mais sarcástico e diz que José Matias era doente - sofria de hiperespiritualismo e aí nos explica do que se trata esta doença. Hoje, o personagem poderia ser diagnosticado com tudo o que há de disponível no mercado da saúde mental: de borderline à sociopatia. Sei que resumir um conto quase sempre torna-o chato e desinteressante, mas vale a leitura deste conto, produzido por um escritor em plena maturidade criativa e vigor intelectual (ele viria a falecer três anos depois de sua publicação). Vale porquanto a forma como ele vai construindo, descrevendo e apresentando-nos o personagem e sua diva é coisa de que só os grandes escritores são capazes. Uma curiosidade: ao contrário de Machado de Assis, Eça produziu poucos contos, reunidos e publicados com o singelo título 'Contos' em 1902; sua obra, além dos romances, é principalmente de crônicas, reportagens e matérias jornalísticas. Atualmente a crítica internacional o coloca ao lado de Joseph Conrad (1857-1924), autor de 'No Coração das Trevas' (1899), como um dos poucos grandes escritores do século XIX com um olhar arguto e crítico, a denunciar a violência do colonialismo europeu e suas consequências em África e Ásia. Suas análises sobre a (violência da) construção do canal de Suez são hoje clássicas e não há historiador que não as use. Relendo anos depois, pude compreender porque este conto causou tanta admiração, espanto e inveja no nosso maior escritor. Não é à-toa que este livrinho - que comprei num sebo muitos anos atrás por um preço risível (uns R$ 5,00 nos dias atuais) quando ainda estava no ensino médio - tornou-se um dos meus favoritos de toda a vida. Salve Eça!

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