O latifúndio é o centro dos debates atuais sobre a problemática brasileira. Para as correntes progressistas ele é a causa básica da crise em que ora vivemos, amarrando-nos à monocultura de exportação, em detrimento da produção de gêneros alimentícios para o consumo interno; impedindo o desenvolvimento do mercado nacional, a democratização da propriedade, do crédito, do poder e a justiça social; enquanto que para as elites conservadoras ganha foros de fator número um de estabilidade social, tornando-se, em consequência, intocável. Alberto Passos Guimarães dá-nos no presente trabalho uma esplêndida e impressionante visão do processo de formação da nossa estrutura latifundiária, desde suas raízes, até o aspecto com que ora se apresenta, mostrando as várias formas de sua evolução histórica e regional. Analisa o autor, com objetividade científica, as teses contraditórias sobre a existência ou não de características feudais em nossa vida rural, chegando a uma definição mais clara e real da mesma, que representa, sem dúvida, uma magnífica contribuição à melhor compreensão desse problema fundamental, indispensável à justa formulação, pelas forças populares, das linhas e dos objetivos da revolução brasileira. Mostra-nos, outrossim, o processo de surgimento do camponês brasileiro, a partir da concentração do latifúndio açucareiro e consequente formação das massas rurais sem terra - os "agregados" - e, posteriormente, com a vinda dos imigrantes europeus e a criação da "parceria". Demonstra a falácia da pretensa equiparação de "parceria" brasileira ao instituto intermediário conhecido na Europa pelo mesmo nome e caracterizado por Marx em O Capital, mostrando o nítido caráter servil das relações de produção aqui existentes. Trata-se, pois, de um livro indispensável ao conhecimento da realidade brasileira, fruto de pesquisas e análises científicas, da elaboração inteligente e de interpretação própria de temas e materiais inéditos, uma verdadeira história econômica do Brasil, tendo por centro o instituto básico da nossa estrutura agrária. A Biblioteca de Estudos Brasileiros orgulha-se, assim, de trazer aos estudiosos mais esta contribuição ao processo de autoconsciência crítica que ora transforma e enrijece o espírito nacional, e que, sendo consequência do desenvolvimento econômico já conquistado, tornou-se hoje no impulsionador básico do seu prosseguimento, que precisamos, portanto, aprofundar e enriquecer.



