Em um primeiro momento estranhei o conteúdo do livro, assim como estranho quase tudo do pós-estruturalismo, penso que esse tipo de abordagem retira a atenção dos aspectos macro que são importantes e aplicam em níveis microscópicos, na esteira do que fez Foucault. ''Homo Sacer'' possui um alto grau de abstração intelectual mas que ao ir se desenvolvendo tudo começa a fazer sentido.
De início Agamben revê o conceito de soberania, tão estudado na Ciência Política, porém de um jeito diferente. Aqui, como se fosse Deus (não necessariamente o cristão) o poder soberano (Estado) tem o poder sobre a morte do seu cidadão e ao estado de exceção. Ora, não é o Estado que diz ser proibido matar mas que detêm o poder de intervir e de declarar o estado de exceção, aplicar a lei marcial? Somente ele possui tal poder soberano.
Logo após, em uma revisitação histórica gigantesca vamos ao HOMO SACER, que é fascinante. Desde quando o homem passou a ter valor intrínseco a ele? Na obra vemos que não foi na Grécia, com seus rituais mortíferos onde o homem só possuía valor quando morria, quando ia para o plano espiritual, em uma sacralidade absurda do ''ser homem''. Na contemporaneidade vemos como funciona o homo sacer: o Estado primeiro elenca a dignidade da pessoa humana, que tem como sub-elemento o valor intrínseco da pessoa, ao mesmo tempo que A MESMA PESSOA pode ser morta quando é elencada como o Outro hegeliano, um traficante por exemplo, um delinquente, o INIMIGO. A pessoa sacralizada é a mesma que é matável.
Por último Agamben fala sobre a politização da vida: VIVER E MORRER SÃO ATOS POLÍTICOS NOS MÍNIMOS DETALHES. O livro foi publicado no século XX mas é perfeitamente possível fazer uma releitura: os homens, gostando ou não de Política, a vivem. O traficante morto na favela não sabe mas faz parte de um jogo maior, a sua vida foi perdida ''em vão'', o seu rosto vai aparecer em um jornal, esse corpo vai queimar o combustível para o Presidente decretar Intervenção Federal, o Prefeito vai dizer que a Segurança Pública está um caos, a dona de casa vai se horrorizar, e por aí vai. Passando de um extremo ao outro, um casamento gay é também um ato político de luta pelo reconhecimento LGBT, etc, etc.
Parte ótima que talvez eu não consiga discorrer sobre porque o próprio autor deixou isso um pouco no ar foi a Lei como pater familiae, já tratado no Direito Penal como ''a lei como pai'', como se tudo revolvesse à uma norma fundamental de Kelsen, ou ao Deus de Tomás de Aquino, ou a Filosofia Última de Aristóteles. Sim, tudo está conectado e sentir isso é lindo.