Resolvi resenhar esse livro como pretexto para falar sobre o processo criativo na escrita, que é também o tema do livro.
Como o título indica, esse livro conta a história de um escritor que está escrevendo uma peça de teatro. Além disso, a obra procurar descrever o processo criativo do escritor.
Tal processo é de uma natureza quase esquizofrênica, e foi isso que me atraiu na obra. Não pelo tema da loucura em si (apesar de gostar do assunto), mas pelo fato de que o processo de escrita, quando executado com intensidade, pode levar a neuroses, alucinações etc, em tratando-se de obras de ficção.
Esse efeito acontece devido à imersão profunda do autor na alma do personagem e no ambiente em que ele vive, o que é muitas vezes um exercício extremamente doloroso e cansativo emocionalmente.
Essa forma de escrever, focada no psicológico, é muito forte na literatura russa, onde o desespero, a aflição são quase palpáveis, principalmente em Dostoiévski. Em Tolstói temos um efeito semelhante, porém Tolstói encaminhou seu espírito em direção à piedade, em vez da aflição, como o fez Dostoiévski.
Nesse quesito, a literatura anglófona está isenta dessas questões, uma vez que ela foca principalmente em enredos criativos e não necessariamente em personagens profundos. Isso é uma observação pessoal, porém também presente em um dos livros de José de Alencar.
Podemos distinguir três níveis de penetração de um escritor em uma história: de enredo, de mente e de espírito.
Na literatura anglófona temos o foco no enredo e na mente (razão). Na literatura russa temos um foco no espírito, além do enredo e mente. Essa é uma das razões pelas quais a literatura é tão intensa psicologicamente, enquanto a anglófona é muito mais criativa em enredos.
Voltando ao livro, o seu mérito é apresentar o processo criativo sob essa ótica das alucinações, as quais não são tão incomuns como se pensa. Escrever é desbravar, é entrar na "toca do coelho" sem saber o que irá encontrar. Logo, esse processo de imersão pode ser perigoso.
Tal ótica é muito pouco abordada na literatura, mas já citada por Fernando Pessoa, quando ele diz (paráfrase): que o poetá é um fingidor, que finge até a dor que de fato sente.
Apesar de o livro como um todo não ser uma obra-prima a ser lida pela maioria das pessoas, ele apresenta esse tema, tão pouco abordado, de uma forma até mesmo realista, eu diria.
Se você tem o costume de escrever ficção, esse livro lhe pode ser interessante, uma vez que ele aborda essa questão da sanidade mental no processo criativo da escrita, a qual é, ao meu ver, muito importante para quem escreve.
Nota 7/10