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    Os vivos e os outros

    José Eduardo Agualusa

    Tusquets
    2020
    207 páginas
    6h 54m
    ISBN-13: 9786555352061
    Português Brasileiro
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    Leila de Carvalho e Gonçalves  picture
    Leila de Carvalho e Gonçalves 08/03/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O Fim Do Mundo

    Jamais havia reparado na Ilha de Moçambique, até o João Eduardo Agualusa mudar para lá. Só então descobri que Camões também residira no local — com direito a estátua em praça publica — assim como Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu de Marília, que após o degredo virou um rico insulano. Em seu novo romance, Os Vivos E Os Outros, Agualusa presta uma justa homenagem a este paraíso, isto é, toma-lhe de empréstimo para relatar o fim do mundo e seu eventual recomeço, tendo como única única arma ou estratégia a nossa capacidade de contar histórias. O mote é uma festa literária interrompida por uma violenta tempestade que impede qualquer contato entre a ilha e o continente. Durante sete dias, ela deixa um grupo de escritores — e seus egos — a mercê de um isolamento forçado que nenhum sairá ileso. Ou melhor, um isolamento que desde a pandemia, descobrimos que ninguém sai ileso. Seu protagonista é Daniel Benchimol, que já participou de dois livros: A Sociedade Dos Sonhadores Involuntários e Teoria Geral Do Esquecimento. Considerado o alter-ego de Agualusa, ele é um escritor e ex-jornalista conhecido pelas reportagens sobre desaparecidos e desaparecimentos, como o misterioso paradeiro do poeta angolano Pedro Calunga Nzagi. Resumidamente, o romance trafega entre a realidade e a fantasia, ignora a divisão do tempo em passado, presente e futuro, emaranhando a linha da vida e confundindo a morte. O resultado é uma história coalhada de reflexões metalinguísticas que além de ressignificar o fazer literário, questiona a identidade da literatura africana e como ela é encarada fora do continente. Em paralelo, ao estreitar o convívio dos escritores, o isolamento da ilha cria uma intimidade que desponta algumas vezes carregada de ciúme e inveja, mas que também pode assumir um tom confessional, atribuindo a escrita a capacidade de salvar ou perdoar. Para concluir, aceite o convite do autor para guiá-lo ao final dos tempos. Um epílogo anunciado por confusas vozes vindas do mar e vigiado por cães raivosos que avança morosamente sobre a ilha invadida por corvos, fantasmas, chupa-sangues e até Lucy, a Mulher-Barata. Uma horda improvável de personagens que ao menor descuido escapa dos livros para testemunhar o julgamento final. Tenha uma boa-viagem! “A igreja de Santo António brilha ao longe, muito branca, flutuando como uma alegre ilusão sobre a esmeralda polida do mar. Uli detém-se a contemplar o cenário. — É sempre assim, a cor do mar? Daniel sorri. — Não. O mar nunca tem a mesma cor. — O mar, o céu, o fogo. Eu é que devia viver aqui. — Não te iludas... Desconfia sempre dos paraísos. A expressão “paraíso perfeito” não é uma redundância, meu caro, é um oxímoro.” (Posição 41) Nota: Adquiri o e-book, recomendo.

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