A Comédia Humana, volume XI - Honoré de Balzac Estudos de Costumes, Cenas da Vida Parisiense, traz os seguintes títulos: 1) Um Homem de Negócios 2) Um Príncipe da Boêmia 3) Gaudissart II 4) Os Funcionários 5) Os Comediantes Sem o Saberem 6) Os Pequenos Burgueses 7) O Avesso da História Contemporânea
A Comédia Humana Vol. XI - Estudos de Costumes - Cenas das Vida Parisiense
Honoré de Balzac
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Vol.XI Cenas da vida parisiense Estudos de costumes Dá início a esse volume da obra balzaquiana Um homem de negócios, conto que se centra na figura de uma dessas figuras corruptas da sociedade parisiense, Maximo de Trailles, o mesmo amante que aruinou a vida de uma das filhas do pai Goriot, em Gobseck. Aqui, através de um diálogo (recurso narrativo comum do autor) envolvendo figuras já conhecidas como Bixiou, La Paferine, Nathan, Malaga, entre outros, narra-se com espirituosidade as esquivanças de Trailles, acossado por duas outras figuras venais já conhecidas da Comédia, homens envolvidos com agiotagem e especulações, Cerizet e Claparon. O motivo é uma dívida, mas como aqui não se trata de uma relação entre um simplório honesto e um inescrupuloso experiente, o conto renderá um divertido, conquanto complexo, jogo de gato e rato. E dá, com esse caráter, uma ideia do nível moral de Paris. Essa capital tem seu bastião da Boemia, ou melhor, príncipe, na figura elegante, espirituosa e alegremente amoral de La Paferine, no conto Um príncipe da Boêmia. Mais uma vez temos uma narrativa alicerçada num diálogo, diálogo este que exige do leitor (até certo ponto) algo mais, pois envolve indiretamente o passado de duas figuras (e muito mais) já conhecidas: Nathan (Uma filha de Eva) e a senhora de La Baudraye (A musa do departamento). Para se ter uma ideia: dentro do conto, temos outro conto, escrito pela senhora que, no momento do diálogo, já abandonou seu marido e está escrevendo para sustentar seu amante Lousteau. Esse estória que ela apresenta para Nathan foi construída com dados que este cedeu a ela, e cuja figura principal é La Paferine. O conto se concentra primeiramente em construir o caráter do ilustre mandriao com pequenas cenas de sua vida, fragmentadas, no espírito de uma crônica de perfil, onde sobressai as diferentes formas que La Paferine se esquiva espirituosamente de compromissos e dívidas que qualquer homem honrado trataria de quitar. Num segundo momento, é narrado seu papel involuntário na ascenção social de outro homem, envolvendo, claro, uma de suas aventuras amorosas. Fecha o ciclo de narrativas curtas voltadas a radiografar a ossatura moral de Paris o conto Gaudissart II. O nome alude à pequena história O ilustra Gaudissart, já narrada na Comédia, mas aqui não se trata do mesmo caixeiro viajante, mas da classe como um todo, incorporada num vendendor que, num único olhar, entende a fisiologia psicológica de uma cliente, e acaba por conseguir passar-lhe a mercadoria que deseja. O talento assombroso a serviço dos interesses mais mesquinhos. Com isso, tem fim a série de breves radiografias de Balzac sobre a capital da França. Os Funcionários é o romance que dá seguimento ao volume, e representa uma ousada empreitada de Balzac: é um romance voltado ao funcionalismo público, com o algo maçante que se pode imaginar que haja numa narrativa voltada à descrição da burocracia e ociosidade de uma máquina pública em tempos da restauração monárquica (os neoliberais de hoje iriam amar a obra...). O início dela, com a descrição dos perfis das personagens principais (e não só eles, mas também dos secundários: nada mais nada menos que todos os funcionários da repartição pública) testa a paciência do leitor e, não obstante o olhar perspicaz de Balzac nas sutilezas sociais, vale mais pela pretensão a historiador do que pela relevância dramática. Em síntese, a obra trata da sucessão do cargo de Chefe de departamento de um ministério, pelo iminente falecimento do titular; dois chefes de seção disputam o cargo, sendo que o sr. Rabourdin faz mais jus ao cargo, por experiência e probidade, que seu concorrente, o sr. Baudoyer, burguês ambicioso secundado por uma família que lhe é semelhante. Rabourdin está socialmente decaindo, não obstante os esforços de sua mulher em ergue-lo, dama que no fundo aspira ao glamour da alta aristocracia; para tanto, perigosamente se aproximará do adultério, flertando com o repulsivo mas influente De Lupeaulx, peça chave nesse quebra-cabeça arrivista parisiense. Rabourdin também desempenhará papel ativo em seu destino, graças a um plano longamente traçado para colocar a França à frente de outros países, administrativamente falando, e que objetiva cortar substancialmente o efetivo do funcionarismo (plano que é exposto em páginas de impressionante crítica ao estado de coisas decadente da França), plano que, ao ser descoberto, escandalizará todo o departamento. Eis uma obra de grande modernidade, e a reação do ministro ao ter contato com o plano não deixa de propiciar ao leitor uma profunda reflexão sobre o destino de grandes feitos idealizados no mundo, bem como a conveniência política em que as coisas se matenham exatamente no ponto em que estão... Os comediantes sem o saberem é uma novela que se sucede à obra acima, e nela teremos as andanças por Paris de três amigos: o provinciano Gazonal, recém-chegado à capital, seu primo Leon de Loras (o Mistigris de Uma estreia na vida - na novela, um artista já estabelecido) e Bixiou, o mistificador sarcástico que retorna em cena aqui, depois de sua aparição também em Os funcionários. Gazonal é mais um retrato pouco lisonjeiro do provinciano bisonho e um tanto avaro que está na capital para resolver uma demanda contra o Estado. Sem sucesso até então, acaba conhecendo seu primo que, com Bixiou, o fará entender como muitas vezes uma demanda judiciária depende menos das leis que das relações promíscuas entre a fauna parisiense... No decorrer do aprendizado, o leitor encontrará com diversos espécimes dessa fauna, e se espantará, assim como Gazonal, com os perfis desses seres, comediantes enfim sem o saberem, mistificados e burlados pelos dois experientes parisienses. Vale ressaltar entre eles a figura do senhor De Rastignac, o pobre estudante de O pai Goriot, aqui já na altura de um ministério do governo (conseguiu ascender socialmente). Os pequenos burgueses é, surpreendentemente, uma obra inacabada de Balzac que, mais surpreendente ainda, o autor incubiu outro amigo de finalizar. Na presente edição (editora Globo, 1989) a obra conta apenas com pouco mais de 200 páginas e um resumo do rumo que a obra teria, se finalizada... Nela, retornam dois dos funcionários do romance Os funcionários. Thuillier e Coleville. Ambos, burgueses a essa altura aposentados (posterior, portanto, em 10 anos ao romance Os funcionários), nutrem uma amizade incomum, sólida mesmo ante o falto de que um (Thuillier) e pai verdadeiro da filha do outro (Coleville). A traição (umas das várias da senhora Coleville) ao fim rende apenas a intenção de herança da irmã Thuillier, sacrificada pela família em prol dele, mas que não lhe guarda rancor, antes busca favorece-lo, juntando um capital imenso à custa de muito trabalho. De olho nesse capital, o advogado Teodoro de la Peyrade (sobrinho do investigador falecido em Esplendores e Misérias das Cortesas), busca seduzir a mãe Coleville, para assim poder garantir a mão da filha (por mais absurdo que isso pareça). Por traz de Peyrade, dois homens, que o controlam por dívidas de um passado obscuro, e estão de olho nos rendimentos da empreitada: Cerizet, o mesmo de Um homem de negócios, e Dutocq. A trama se desenvolve muito intricadamente, com interesses vários, mas com a firme intenção de enfocar criticamente a burguesia que tanta espécie causa a Balzac. Aqui muitos personagens de Os Funcionários e de outras obras marcam presença, e a trama mesmo se entrelaça a outras da safra balzaquiana. Mas por ser obra inacabada, não se pode concluir com satisfação uma avaliação. Põe fim ao volume o romance O avesso da história contemporânea, justamente a última obra que Balzac publicou em vida. Nela acompanha-se o inquieto jovem Godofredo que, ao longo da vida, buscou a ascenção mundana, lançando mão de diversos expedientes, alternando diferentes ideologias políticas, mas tudo em vão. Quando se encontra desalentado num parapeito de uma ponte, próximo ao Sena, testemunha uma cena misteriosa entre um padre e um homem melancólico. Ao seguir o padre e conhece-lo, acaba por conhecer o local onde mora e toma conhecimento de que ali um quarto está vago, numa espécie de pensionato semelhante a um monastério. Por razões práticas financeiras, decide se mudar pra lá, conhecendo uma pequena tertúlia de religiosos bem-feitores, outrora figuras brilhantes da sociedade parisiense. Sobressai, em meio dessas cinco figuras, a figura enigmática da senhora de la Chanterie, cujo passado traumático assombrará certamente o leitor. Essa história acabará por se entrelaçar com a vida paupérrima de um pai que, com seu neto, cuidam de sua filha doente, com uma moléstia singular; família esta a quem Godofredo, agora um aspirante à vida monástica do pequeno grupo, está incubido de ajudar para, assim como a irmandade, viver a essência real da vida cristã. O avesso da história... apesar de algumas situações hiperbolicamente românticas, traz grandes momentos iluminados pela pena de Balzac, enfocando caridade, injustiça, vingança, perdão e redenção em pleno centro corrompido de Paris. Uma obra que traduz o real significado da filantropia, conceito que, ironicamente, Balzac criticou mais de uma vez no contexto em que viveu, quando havia até premiação para celebra-la (e que curiosamente Balzac almejava ganhar com essa obra). O décimo primeiro volume da grande obra de Balzac finaliza as cenas parisienses, com um enfoque na estrutura estatal da capital, seus costumes e valores duvidosos e o ataque insistente à burguesia recém empoderada, que para Balzac não passa de um reunião de cupidez, vulgaridade e prosaismo. O autor, em muitas dessas páginas, mostra-se pioneiro em suas abordagens, definindo a linha que a prosa realista irá adotar nos anos posteriores.
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