Jesus Kid -

    Lourenço Mutarelli

    Companhia das Letras
    2021
    168 páginas
    5h 36m
    ISBN-13: 9786559210220
    Português Brasileiro

    Lançado pela primeira vez no início dos anos 2000, Jesus Kid ganha agora uma nova edição, completando assim a coleção dos romances de Lourenço Mutarelli pela Companhia das Letras. Escritor de livros de faroeste, Eugênio está passando por uma fase difícil. Ele é famoso pelos romances estrelados por Jesus Kid, mas faz algum tempo que suas vendas estão indo de mal a pior. A luz no fim do túnel parece ser o convite de um diretor de cinema: ele quer que Eugênio escreva um roteiro de filme. Contudo, para escrever esse roteiro, Eugênio deve ficar três meses isolado em um hotel de luxo, sem poder sair nem ter contato com o mundo que conhece. Partindo dessa premissa, Mutarelli constrói uma crítica mordaz ao mercado editorial e ao mercado do cinema ― por onde circula há anos. Trazendo para Eugênio muito de sua própria personalidade, o autor mostra como a parte comercial da cultura pode ser perversa com aqueles que nela atuam.

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    João Guilherme Gurgel23/08/2024Resenhou um livro
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    Querido diário, me proteja de mim.

    *Ação!* A literatura barata sempre valorizou a ação. O imperativo, presente em mil-e-uma passagens por todo o livro, é uma ordem da dupla Max & Fábio à Eugênio, o narrador-protagonista; ambos, respectivamente produtor e diretor de um futuro filme, contratam o protagonista para escrever um roteiro para ser usado neste. Para isso, ele deverá ficar, por noventa dias, isolado em um hotel, estando terminantemente proibido de sair do prédio. Eles só meio que não sabem que Eugênio é perseguido e/ou seguido e/ou acompanhado por seu alter ego e/ou personagem de maior sucesso de sua carreira e/ou amigo e/ou inimigo Jesus Kid, um cowboy que protagoniza os romances (de banca) de um tal de Paul Gentleman, que, para a surpresa geral, é o próprio Eugênio. Acompanhando as agruras de um protagonista experimentando as mais recônditas das paranoias, também experimentamos um livro claramente experimentalista, como toda a obra de Lourenço Mutarelli. Em um ímpeto artístico, o autor tem uma clara aproximação a se provocar, e neste ínterim, provocar o leitor. Há uma clara crítica ao mercado editorial, que poderia ser expressa de todas as formas possíveis, mas apenas na mão de Mutarelli conseguira adquirir esse toque surreal; tal como em O CHEIRO DO RALO, o protagonista é uma pessoa horrível, misógina, um filhotinho de Chernobyl, mas que, por guinadas narrativas, conseguimos nos solidarizar; o autor consegue fazer a proeza de nos fazer sentir pena de quem não merece. E me vale fazer um interregno para falar dos personagens; como em toda a literatura pós-moderna, são kafkianos, estranhos, surreais, teatralizados, e mais uma penca de adjetivos antônimos a palavra ‘normal’. O hotel em que isola-se abriga os mais caricatos dos personagens, como o recepcionista Chet, a Enfermeira Nurse… E não posso esquecer de fazer um adendo sobre o próprio Jesus Kid, que é altivo nos momentos em que está em evidência, e se acanha na mesma frequência que é esquecido. Ha muito tempo, seja no cinema, no teatro ou na literatura, não vejo uma retratação tão minuciosa de como é a vida de um autor que é refem da indústria, do mundo e de suas próprias criações. Vale a leitura.

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