"O Bruxo do Cosme Velho", assim chamado devido ao bairro onde morava no Rio de Janeiro, escreveu cerca de duzentos relatos, que podemos incluir no gênero conto, o que revela uma produção considerável, tendo em vista as demais tipologias literárias desenvolvidas pelo autor. Nessas páginas, o leitor encontrará o mesmo observador de almas e das contradições humanas revelando um tom de moralidade típico dos contos clássicos. Será brindado com considerações filosóficas recheadas de humorismo, embora um pouco superficial, graças ao estilo romântico predominante na época de sua escritura. Por meio dos Contos Fluminenses (1870), o leitor observará Machado de Assis dando os primeiros passos num gênero ainda pouco difundido no Brasil, na época de sua publicação. Mais tarde Machado viria a ser considerado o maior contista brasileiro de todos os tempos.
Contos Fluminenses -
Machado de Assis
Desbravando o gênero conto mais detidamente, temos aqui, talvez, os primeiros passos mais consistentes do Machado contista. Ainda que tenha publicado contos desde bem cedo, penso por exemplo, em O País das Quimeras publicado em 1862, com apenas 23 anos; é só em 1870 que irá organizar em livro alguns de seus contos. Com exceção de Miss Dollar" (conto inédito), os demais contos foram publicados entre 1865 e 1869. Me explicarei sobre o contexto biográfico aqui delineado. Pois, é através dele, que nos deparamos com a imaturidade de Machado, mas também com lampejos de sua genialidade em construção. O contra senso da frase genialidade em construção, é justamente aquilo em que acredito. Machado além de negar os realistas fiéis a verossimilhança, também negava os românticos. Se há um consenso que Machado é nosso maior escritor, não vejo a mesma preocupação em traçar que essa grandeza foi construída com muito esmero, passo a passo, livro por livro. Vamos ao livro. Todos os contos têm como pano de fundo um enredo romântico, todavia, utilizam de sua temática para eclodir a expectativa de um estética romântica. É a partir de seu conteúdo que Machado irá explorar livremente (e de certo modo, experiencialmente) a forma de seus contos. Passeando entre o puro romanesco, a comédia, a tragédia, desenha-se (como sempre) todo aquele painel social, crítico e agudo. As contradições da aristocracia, seus olhares enviesadamente fechados, em alguns casos, são o ponto de chegada e motivo para o triste desenlace de algumas histórias. Ademais, temos o embrião dos narradores auto-conscientes de Machado, sua postura arguta, escorregadia. Talvez, possamos enxergar aqui, algumas linhas de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro (para falar de romances). Dentro desses contos, já podemos vislumbrar a famigerada preocupação com a ascensão social tão presente em seus quatro primeiros romances. Dado esse ponto de partida, preciso concluir com suas falhas. Parafraseando Edgar Allan Poe, acredito que a principal falha de Machado nesses contos, esteja em não se atentar ao gênero pretendido antes de pensar suas histórias. Em muitas delas, a unidade de efeito se perde. Alguns desses contos, teriam facilmente fôlego para serem uma novela ou mesmo um romance. Por esse motivo, a conclusão de algumas histórias são apressadas, aceleram o tom das narrativas indo em total desacordo com o que era construído até ali. Algumas se embotam, se repetem e, em alguns casos, se alongam em demasia. Enquanto alguns têm fôlego para mais, outros não. Ainda sim, a seleção dos contos possui uma unidade clara, uma convergência entre as personagens, seus anseios, como também em seus imbricamentos estruturais.
Estatísticas
Avaliações
4.1 / 1168- 5 estrelas36%
- 4 estrelas38%
- 3 estrelas22%
- 2 estrelas4%
- 1 estrelas1%









