Um jovem escritor, acorda no meio da noite, não sabendo quanto tempo dormira observa que não há luz no quarto e nem na rua, e que tudo está silencioso. No começo, o jovem escritor não vê nada de mais, até que percebe que tem algo estranho acontecendo; as horas vão passando e nada do dia amanhecer, e o silêncio é literalmente absoluto. Então decide sair do quarto percorrendo a pensão, se não estou enganado, onde vive, e a cada quarto que entra as pessoas estão mortas. Horrorizado, ele se lembra de sua noiva Laura, decide ir atrás dela; ao sair para procurá-la se depara com vários cadáveres espalhados pelo chão; ao chegar na casa de sua amada, a encontra desmaiada, mas depois de um tempo acorda, aliviados ao se verem, os dois tentam sobreviver ao ambiente hostil em que o Rio de Janeiro se tornou.
Confesso a minha surpresa ao ler esse conto, pois ele destoa radicalmente do que o Aluísio de Azevedo escreveu; se em O Cortiço e O Mulato tínhamos uma narrativa calcada na realidade nua e crua, em Demônios temos um conto totalmente focado no terror, com teor fantástico; notamos ainda a influência óbvia do gótico, com um cenário noturno, tendo passagens grotescas, mórbidas e até certo ponto nojentas.
Em alguns momentos achei a narrativa lenta, como se o autor não soubesse o que ia fazer com o plot instigante que acabou de escrever, mas ainda estranhamente me sentia tenso; depois de um tempo percebi qual era a intenção do autor, aqui o clima sombrio é mais importante do que grandes acontecimentos, tanto que a escolha de não termos sequer menção da chegada luz solar foi acertadíssima, quem já andou numa noite em que há queda de energia elétrica por horas, sabe a angústia que dá caminhar nesse momento, passamos da lucidez para momentos de delírio, onde todos os acontecimentos possíveis passa na nossa mente, principalmente aqueles mais fantasiosos como demônios, espíritos... Afinal, não há nada mais perigoso do que a nossa imaginação, não é mesmo?
O conto parece criticar a sociedade e ao mesmo tempo tem um tom moralista, nas ruas com aqueles cadáveres no chão, as pessoas parecem ter um motivo específico para estarem daquele jeito; luxúria, vício, avareza, etc, são alguns dos motivos, é como se Aluísio de Azevedo estivesse condenando certos modos de vida como um esforço de doutrinar religiosamente seus leitores. Num outro momento, o jovem escritor e sua esposa começam a sentir o erotismo crescendo dentro de si, durante a leitura observem o momento em que isso vai acontecer.
O conto sofreu 2 alterações feitas pelo Aluisio de Azevedo, que na minha visão foram significativas, na 1ª foi alterada o trecho em que há o tom moralizante; na 2ª versão o autor encurtou o conto, retirou os trechos de descrições sexuais explícitas e retirou a maior parte das descrições repulsivas. Não sabemos o motivo exato de tal atitude, acho que o conto deve ter incomodado a sociedade e os religiosos da época, mas talvez vai demorar muito até descobrirmos o que de fato aconteceu ou talvez nunca vamos saber. Mas, é óbvio que essas mudanças prejudicaram, e muito, o conto; pois obviamente uma boa parte da tensão que a narrativa provocava foi sacrificada, seus simbolismos também tiveram o mesmo destino. Com muito esforço, dá pra achar a primeira versão pela internet.
Pra me ajudar nessa resenha, li um artigo da revista SOLETRAS da UERJ, lá esse conto é tratado de forma bem mais aprofundado do que aqui.
Fontes:
Do Naturalismo ao Gótico: as três versões de Demônios, de Aluísio Azevedo escrito por Júlio França e Marina Sena