Não gastarei tempo desfazendo espantalhos sobre Che. Cabe ao acusador, seja quem for, o ônus da prova.
Devo dizer, particularmente, que o discurso que encerra o livro, Mensagem aos Povos do Mundo através da Tricontinental, foi o texto mais mobilizante e vivo que já li sobre a insurgência da classe trabalhadora.
Divido esta resenha em duas partes: uma sobre a pessoa e a voz ideológica de Che, e outra, de igual importância, sobre o conteúdo e a didática apresentados neste livro.
A voz do argentino Ernesto “Che” Guevara
Assim como quando lemos Lenin, encontramos em Che uma voz calejada pela prática. Ambos compartilham a veia filosófica, com o último nutrido pelo primeiro, e também dividem a importância histórica da prática revolucionária. Portanto, lemos a obra de um homem que pegou em armas pela libertação da classe trabalhadora, que de forma heroica lutou contra os EUA e o exército reacionário local em Cuba (1956 - 1959), assim como no Congo(1965) e na Bolivia (1966 - 1967). Por isso, antes de mais nada, devemos dedicar o respeito que um soldado do nosso campo merece por seu sacrifício.
Mas Che não lutou apenas com armas e estratégias militares pela causa socialista e pela libertação dos povos do jugo do capital. Antes mesmo de ser soldado e combatente, dedicou-se ao aprendizado e à técnica, o que lhe permitiu, ao unir uma coisa à outra, escrever de forma correta e fundamentada na prática – a síntese do Marxismo-Leninismo.
O conteúdo econômico e mobilizador do guerrilheiro
Che escreve de forma variada para públicos diversos, o mesmo que faz em seus discursos. Não é prático discorrer sobre temas complexos de economia para quem não os compreende, assim como não faz sentido se conter, por querer falar a todos, e deixar de tratar das complexidades exigidas pela vanguarda de um partido socialista. Essa diferença fica clara neste livro.
Ainda que trate de economia política e industrial, Che fala de maneira acessível para aqueles que têm alguma base no assunto. Ou seja, ele escreve para ser compreendido pelo maior número possível de pessoas, buscando alcançar a massa trabalhadora, se possível. Isso, por si só, já é louvável e exemplar.
Não entrarei na análise das escolas de pensamento aqui expostas. Prefiro destacar a forma como Che as apresenta, dando voz a quem o contradisse e, então, de forma justa, exibindo sua resposta.
E se, por um lado, merece elogios pela maneira como aborda as discussões econômicas, por outro, na parte mais mobilizadora para a classe trabalhadora, em seus discursos ao povo, ele atinge a excelência. De forma simples e didática, Che expõe o inimigo comum, o imperialismo, que afeta e explora toda a classe produtora.
Seu discurso internacionalista traz à ordem do dia a união dos povos explorados. Ele oferece caminhos e propõe a lógica de que, juntos e organizados, somos mais fortes. Como classe produtora do mundo, como aqueles que fabricam tudo o que há, representamos os 99%, a maioria. E unidos, como irmãos, como soldados em uma luta comum, somos incontornáveis.
Darei alguns exemplos da escrita do Che, tirados do último texto deste livro, um discurso em 1965.
Este primeiro serve para nos lembrar que a colonização promovida pelo comando sionista, o fascismo israelense, existe há muito tempo. Aqui, Che está descrevendo o imperialismo estadunidense e europeu, e suas garras ao redor do globo:
“Pertencendo geograficamente a este continente, mas com suas próprias contradições, o Oriente Médio está em plena ebulição, sem que se possa prever até onde chegará essa guerra fria entre Israel, apoiada pelos imperialistas, e os países progressistas da zona. É outro dos vulcões ameaçadores do mundo.”
No mesmo texto, cita a Palestina como ponto de resistência no Oriente Médio. E isso em 1965.
Após fazer a leitura do cenário global, Che finaliza com este chamamento à classe trabalhadora:
“Se a nós [classe trabalhadora cubana], que em um pequeno ponto do mapa do mundo cumprimos o dever que preconizamos e colocamos à disposição da luta, este pouco que nos é permitido dar: nossas vidas, nosso sacrifício, nos toca algum dia destes lançar o último suspiro sabendo ter atuado no alcance de nossos atos. E, se não formos nada mais do que elementos no grande exército do proletariado, nos sentimos orgulhosos de ter aprendido da revolução cubana e de seu grande dirigente máximo a grande lição que emana de sua atitude nesta parte do mundo: ‘Que importam os perigos ou os sacrifícios de um homem ou de um povo, quando está em jogo o destino da humanidade?’
Toda nossa ação é um grito de guerra contra o imperialismo e um clamor pela unidade dos povos contra o grande inimigo do gênero humano: os Estados Unidos da América do Norte. Em qualquer lugar que nos surpreenda a morte, bem-vinda seja, sempre que esse nosso grito de guerra tenha chegado até um ouvido receptivo, e outra mão se estenda para empunhar nossas armas, e outros homens se aprestem a entoar os cantos fúnebres com o troar de metralhadoras e novos gritos de guerra e vitória.”
Venceremos! 🚩