Prevejo DPL profunda, prevejo incapacidade de formular pensamentos coerentes sem cavalos assassinos, prevejo uma saudade infernal do clima infernal de Thisby. Prevejo que vou levar um tempo até achar outro livro que me encante tanto quanto esse.
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Obviamente, o número de coisas que já li é uma parcela obscenamente minúscula perto da quantidade de livros existentes, mas tenho consciência de que, para uma pessoa de 20 anos, já li pra caramba! Com essa bagagem literária nas costas não pude deixar de reparar que o plot, o enredo, de A Corrida de Escorpião era tão original quanto todos aqueles jornais gritavam/afirmavam na aba/orelha.
Original de um jeito meio paradoxal. Calma, eu não faço uso de entorpecentes de qualquer tipo, só tenho um ponto meio difícil de ser colocado e compreendido. Ou talvez ele não seja difícil de ser compreendido e eu só ache isso porque levei um tempo até achar o que estava procurando.
A Corrida de Escorpião é um livro original construído por clichês.
Não, não, não! Clichê é uma palavra forte e provavelmente você leu isso com um tom pejorativo, como se eu, a doida do blog, afirmasse que falta criatividade pra dona Maggie. Dificilmente vamos encontrar algo mais longe da verdade para dizer sobre a autora e seu livro do que isso e não me surpreenderia se ela se ofendesse profundamente e iscasse cavalos dágua em todo mundo.
Anyway! Conforme avançava na leitura de A Corrida de Escorpião, devidamente me impressionei com o que estava ali para me impressionar e me acostumei com as verdades universais de Thisby. Porém alguma outra coisa se esgueirava na minha cabeça, dando a aquela leitura um tom de familiaridade.
A princípio achei que fosse o modo como os costumes estranhos e a realidade daquela pequena sociedade me eram apresentados. Vejamos, a Maggie não para e explica a situação, ela apenas dá a entender e confia na inteligência do leitor. Pegamos o bonde andando e sério, é muito mais legal assim! Não obrigar o bonde a parar pra você subir e ainda sentar na janelinha, porque é isso que nós leitores fazemos, e simplesmente embarcar enquanto ele passa não pausa nada, a vida continua e você tem a opção de saltar e deixar tudo para trás ou se mesclar naquela continuidade. Fazer parte dela.
Funciona, mas essa ainda não era a familiaridade que estava me encucando.
Só me toquei mesmo quando estava dando os parabéns pra Puck, a mocinha, por ela ser uma pessoa tão forte e capaz de arriscar tudo para ajudar a família e tão valente apesar dos preconceitos todos e e epa. Já vi isso antes, certo? A mocinha que toma conta do próprio nariz apesar de às vezes ser teimosa demais. Daí percebi que o Sean também tinha culpa, sabe o mocinho durão, calado, super introspectivo que, por baixo do rosto inescrutável, guarda um carinha muito doce e gente fina? Uma prova que libertará o vencedor não só de algum problema material como lhe trará paz interior? A sociedade hipócrita que não suporta mudar suas preciosas tradições estava lá também, assim como o vilão que tem todos em suas terríveis mãos por dívidas, promessas e dinheiro. Até os cavalos dágua podem ser considerados lugar-comum se você vive na Escócia/Irlanda/País de Gales, mas enfim, Maggie deu sua própria roupagem para essa lenda céltica com gosto de água do mar e o crédito disso é todo dela.
Apesar do que pode parecer agora que eu disse isso, é um livro autêntico.
Umas das coisas interessantes a respeito dele é que é produto de várias tentativas e erros. Maggie admite que a lenda em que se baseou é confusa, complicada e, como toda lenda que se preze, tem muitas variações. Por isso demorou a achar o tom certo e encontrar a confiança para deixar a imaginação fluir.
Deus é mais! Ela achou a tal confiança e criou um mundo de encanto dentro desse, cético, onde todos reconhecem que os cavalos dágua de Thisby são fenômenos de pura magia e plenamente aceitáveis. Parece confuso num primeiro momento, quando você não consegue saber se aquilo tudo se passa na Terra ou algum outro lugar qualquer, mas vale a pena.
Se você é fã dos Lobos de Mercy Falls vai concordar quando digo que a autora tem um meio de não apenas narrar os acontecimentos, ela expõem a estória e também as nuances de seus personagens de forma certeira. Como já comentei na resenha de Travessia, as palavras de livros assim não estão simplesmente ali sendo usadas pra escorar a estória, elas foram colocadas e ordenadas de forma a tirar o melhor daquilo. O resultado sempre é um livro que é mais que os outros.
A Corrida de Escorpião tornou-se um dos meus livros favoritos e recomendo para bem, para todo mundo!
Para essa e outras resenhas na íntegra, acesse: www.desigusson.com
(Vai lá, gente, é legal!)