O céu da meia-noite (TAG Curadoria - Mar/2021) -

    Lily Brooks-Dalton

    Morro Branco;TAG Experiências Literárias
    2021
    288 páginas
    9h 36m
    ISBN-13: 9786586015102
    Português Brasileiro

    O que resiste ao fim do mundo? Augustine é um cientista brilhante que dedicou toda a sua vida às estrelas. Isolado na beleza gélida de uma base de pesquisa no Ártico, ele recebe notícias de um evento catastrófico. Augie se vê sozinho, exceto por Iris, uma criança que foi deixada para trás quando os pesquisadores partiram. Sullivan sacrificou tudo para embarcar na espaçonave Aether, que, após uma missão até Júpiter, está finalmente voltando para a Terra. Porém, quando todas as comunicações cessam, Sully se pergunta o que os aguarda neste retorno. Conforme o silêncio se expande, os dois personagens buscam compreender o que dá significado a suas vidas. Um romance pós-apocalíptico belamente escrito que explora memória, perda e identidade. - The Washington Post

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    Sidney Danillo de Moraes Lopes15/06/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A Fábula Cósmica Sobre a Solidão

    No mundo da literatura, um dos maiores prazeres que se pode ter é quando estabelecemos uma conexão emocional com um livro do qual não tínhamos nenhuma expectativa. E é justamente isso que aconteceu comigo ao ler "O Céu da Meia-Noite", livro de estreia da escritora Lily Brooks-Dalton, lançado em 2016. Por mais que eu tenha iniciado estas páginas desconhecendo a escritora, hoje com a leitura finalizada e depois de dias dialogando com a história, posso dizer que Lily já conquistou meu imenso respeito e admiração, por ter escrito uma história de ficção científica de uma forma inesperada: centrando todos os holofotes narrativos sobre o interior do ser humano, mais especificamente sobre nossos dois protagonistas. O livro possui duas linhas narrativas: a primeira acompanha o astrônomo Augustine, que reside em uma base de pesquisas situada no Ártico. Por algum motivo, a estação foi evacuada por conta de algum fator catastrófico e não revelado pelos militares, mas Augustine, já velho e acostumado à solidão, prefere continuar na base e terminar seus dias por lá, tendo como única e tímida companhia um urso polar que ele vê vez ou outra ao longe na paisagem branca. Até que, certo tempo depois, ele encontra uma garotinha escondida na base, chamada Iris. Surgem então perguntas como: como ela apareceu ali, como foi deixada para trás, como sobreviveu durante esse tempo. E todas serão respondidas ao final da narrativa, mas o principal aqui é dizer que Iris é a catalisadora de todo arco de evolução pelo qual Augustine passa durante a história. Através da convivência com a pequena, o velho Augie passa a ver algum sentido em sua vida e, pela primeira vez, seus olhos estão voltados para o seu redor, para uma presença a seu lado, e não para as estrelas, onde sempre estiveram. O segundo foco narrativo acompanha a astronauta Sullivan, que integra a tripulação da nave Aether enviada em uma missão até Júpiter, para a análise de suas luas. Quando o controle de missão deixa de se comunicar com a nave, o silêncio passa a deixar o clima na Aether cada vez mais tenso e ao mesmo tempo melancólico pois os tripulantes passam a afundar dentro de si mesmos - e é nesse mergulho que somos conduzidos à história de Sully, passando a partilhar de todas as suas lembranças. As duas linhas de condução funcionam como "narrativas-espelho", onde vemos muita sinergia e semelhanças entre as duas, mesmo com elas não se cruzando até o final da história. Cada capítulo vai revezando entre as duas narrativas e nesse trajeto vamos conhecendo a história de Augie e Sully, que possuem pontos importantes em comum sobre abandono, escolhas erradas, solidão e sentimento de pertencimento. Por mais diferentes que as histórias sejam, elas funcionam bem como a parte de um todo maior - a ser revelado posteriormente - como o símbolo de Yin-Yang, preto e branco, o preto do espaço e o branco do Ártico, e mesmo assim componentes de uma mesma realidade maior, apresentada sem romantismo ou vitimismo, de uma forma muito delicada e bela graças à graciosidade da escrita de Lily Brooks-Dalton, um espetáculo à parte. Lily escreve de forma calma e poética, destacando muitas texturas, cores e sensações, tornando a leitura extremamente sensorial. Gostaria inclusive de reproduzir aqui apenas o parágrafo que abre o livro: "Quando o sol enfim retornou ao Círculo Ártico e manchou o céu cinza com riscos de um cor-de-rosa incandescente, Augustine estava lá fora, esperando. Ele não sentia a luz solar no rosto havia meses. O brilho róseo se derramou sobre o horizonte e se infiltrou no azul gélido da tundra, projetando sombras anil pela neve. A alvorada subiu como um muro de fogo implacável, o cor-de-rosa delicado ganhando a profundidade do laranja, consumindo as grossas camadas de nuvem uma a uma até que o céu inteiro começasse a arder. Ele se deixou banhar por aquele brilho suave, sentindo a pele formigar." Notem a beleza desta descrição, imersiva e poética! E eu poderia citar aqui inúmeras outras, mas isso estenderia muito esta resenha. Basta dizer que há outros tantos trechos tão belos como este. Posso dizer que me apeguei bastante aos personagens, gostei muito de conhecê-los e partilhar de suas histórias. A escritora soube perfeitamente construir a história dos dois personagens, de tal forma que toda personalidade e as decisões de cada um sejam justificadas no texto. Nós leitores conseguimos entender perfeitamente os motivos de Augustine ter escolhido o distanciamento, bem como entender por que Sullivan deixou uma linda família para trás para embarcar em uma viagem de anos para os confins do espaço, o porquê de um tripulante ter diversas fotos da família consigo enquanto Sully só possui uma: a foto de sua filha Lucy, que nem era exatamente atualizada. O vazio de ambos é totalmente justificado, o que torna a conclusão de seus arcos extremamente poderosa e arrebatadora, mesmo que ao fim não saibamos o que ocorreu de fato à Terra. Foi uma escolha consciente da escritora - sua forma de dizer ao leitor: o foco aqui é interior, são os sentimentos que permeiam as vidas destas duas pessoas tão extraordinárias e ao mesmo tempo mundanas, este é meu objetivo com este livro. É falar sobre como nos tornamos quem somos e como, mesmo muitas vezes sem esperanças, seguimos em frente. Mesmo que geralmente eu dê muitos spoilers (devidamente pontuados, é claro!) desta vez vou aderir à sutileza narrativa de Lily Brooks-Dalton e deixar quem está lendo conhecer por si só esta história, descobrir as ligações entre os personagens, os dois plot-twists e os desfechos com as evoluções de Augie e Sully. E mesmo que não existam respostas dentro do texto para o silêncio da Terra, de forma nenhuma senti que esta seja uma história sem conclusão, ela possui sim um fechamento: para Augie é a serenidade e aceitação - incrível como seu encontro final com o urso polar é tão carregado de beleza e sensibilidade; para Sully, o desfecho é a promessa de uma nova vida, mesmo que o futuro não se mostre promissor - a partir dali, uma nova história será contada. Os finais estão aqui no texto, Lily apenas pede que seus leitores tenham alguma sensibilidade para perceber isso e que avancem um pouco além do óbvio. Só um pouco. E, partilhando aqui uma experiência totalmente pessoal: a discografia da banda holandesa "The Gathering" foi minha trilha sonora, ampliando os sentimentos que tive com a leitura. Interessante que, sem nenhuma pretensão, escolhi como trilha sonora uma banda que possui muitos paralelos com a história de "O Céu da Meia-Noite", toca nos mesmos assuntos. Finalizando, me sinto na obrigação de falar sobre o cuidado da editora Morro Branco com a edição desta obra: capa muito bonita (simboliza com perfeição o teor do livro), capa dura e edição acompanhada de uma pequena revista com alguns conteúdos extras, cujo principal atrativo é a entrevista com a autora. Ah sim: há a adaptação da Netflix dirigida por George Clooney... vou ser direto aqui: não é nem de longe um filme ruim, mas não chega nem aos pés da experiência que é a leitura deste livro. --- TS: The Gathering: Nighttime Birds (1997) If_Then_Else (2000) Souvenirs (2003) Superheat [Live] (2000) Sleepy Buildings (2004) A Sound Relief (2018) Alcest - Les Chants de l'Aurore (2024) Explosions in the Sky - Those Who Tell The Truth Shall Die... (2001)

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