No decorrer das sagas "O longo Dia das Bruxas" e "Vitória sombria", Jeph Loeb plantou uma sugestão inquietante: a de que Selina Kyle, a Mulher-Gato, seria filha do chefão da máfia de Gotham, Carmine "Romano" Falcone. Essa ideia é retomada aqui em "Cidade eterna", com a determinada Selina decidindo tirar essa história a limpo de uma vez por todas. Ela resolve, então, ir até o coração da máfia, em Roma, para tentar desvendar o mistério de suas origens. No entanto, a única pessoa que poderia fornecer as informações que ela procura, o chefe do clã Verinni, é assassinado durante o encontro que ela tem com ele, fazendo dela a principal suspeita pelo crime.
Este é mais um trabalho instigante da dupla Loeb e Sale, com os principais elementos que os tornaram conhecidos no universo DC, sobretudo do Batman: e o mais interessante é que nesta minissérie NÃO há Batman para resolver os problemas (e são muitos). Aqui a Mulher-Gato tem a possibilidade de brilhar por conta própria, ainda que conte com a ajuda ocasional de dois tipos improváveis: o Charada e o "Loirinho", um assassino profissional italiano.
Sobre a arte, o traço do Tim Sale está ótimo, entregando muita elegância aos personagens (afinal, estamos na Itália, berço das marcas Gucci e Armani) e, particularmente, muita sensualidade à Selina; em muitos momentos ela está de pouca roupa e, realmente, há muito ali a ser contemplado. Também merece menção o cuidado do artista com a arquitetura: os lugares históricos visitados por Selina são visualmente deslumbrantes.
Agora, quanto ao roteiro de Loeb, há algumas ressalvas. A primeira é a duração da minissérie: são seis edições, a metade do que ele entregou em "O longo Dia das Bruxas" e em "Vitória sombria". Certamente, "Cidade eterna" é uma história menos ambiciosa e, por isso, ocupa menos edições; contudo, parece que a trama poderia se estender por mais umas duas, pois muito da ação acontece às pressas, sem muito desenvolvimento. Isto leva à segunda ressalva: as atitudes de alguns personagens também carecem de um aprofundamento ou são contraditórias. O exemplo mais gritante, para mim, foi o caso do "Loirinho", que vinha demonstrando total profissionalismo, mas teve um desfecho... amador, para dizer o mínimo. Por fim, há a manjada "fórmula Loeb", na qual vários vilões aparecem para infernizar a heroína mas, no fim da história, um só vilão é revelado como o verdadeiro responsável pela "conspiração" toda, tendo manipulado todos os demais. Eu até gosto dessa coisa meio Dan Brown, mas aqui ficou pouco plausível.
Apesar dessas observações, é uma história que se mantém acima da média na maior parte do tempo, cumpre sua função de entreter e é um ótimo complemento ao universo do "Longo Dia das Bruxas".