Escritor premiado com o Médicis (1988), Príncipe Astúrias de las Letras e o Reino Sofia de poesia (1977), Álvaro Mutis é um dos grandes nomes da literatura latina contemporânea. Em A neve do almirante, ele acompanha as aventuras de Maqroll el Gaviero — ou seja, o que nos navios a vela sobe ao cesto da gávea, a fim de avistar terra — pelo sinuoso rio Xurandó. O personagem, narrador de uma série de sete novelas do autor, foi apresentado ao público brasileiro em A última escala do velho cargueiro, no qual o navio é símbolo e metáfora para amores transitórios e impossíveis; para a deterioração e decomposição do homem, na alma e no corpo. Em A neve do almirante, Mutis faz do mar, ou melhor, de um rio, o cenário de uma história em que mistura a busca pelo desconhecido, o medo da morte e a descrição detalhada de personagens de traços grotescos e senso de ética surpreendente. “Cada um deles tinha uma história que preencheria muitas páginas de um prontuário que nunca será levantado”. Uma história que acompanha o caminho de um barco pelo sinuoso rio Xurandó, na selva amazônica. Um navio frequentado por índios que entram e saem como se fossem passageiros de um ônibus metropolitano. Alguns sobem armados com flechas cujas pontas estão embebidas em curare, o veneno de ação imediata cuja fórmula é um segredo nunca revelado. As práticas sexuais dos nativos são descritas de forma bem natural pelo narrador, que se vê sempre à volta com um mundo onde tudo parece hostil, alheio para Maqroll. O destino é um lugar onde se encontram madeireiras, mas o principal de A neve do almirante, considerado um dos melhores de Álvaro Mutis, não são os nomes nem os acidentes geográficos, mas sim a trajetória desses cidadãos de mundos quase sempre navegados e mesmo assim desconhecidos e misteriosos. Filho de pai diplomata, Álvaro nasceu em 1923, na Colômbia, foi criado na Europa e viveu sua infância entre duas terras. Aos 16 anos, Mutis volta a Bogotá e logo começa a trabalhar na imprensa colombiana. Em 1948, inicia sua atividade literária ao escrever o primeiro livro, La balanza, publicado junto com Carlos Patiño. O segundo, Los elementos del desastre, Mutis publica sozinho em 1952. O ano de 1956 marca a vida do escritor: muda-se para o México, lança Reseña de los hospitales de ultramar e é preso por 18 meses. A prisão muda sua vida: “eu antes era um garoto mimado, e essa vida tão fácil gera insensibilidade. Este foi um acontecimento importante, doloroso, mas abriu muitas portas para a sensibilidade, e creio que pelo primeira vez sei o que é o verdadeiro contato humano.” Durante o ano e meio que ficou confinado a uma cela, Mutis escreveu três livros: Cuatro relatos, Los trabajos perdidos e Diario de Lecumberri. Depois dos 50 anos, decidiu dedicar-se exclusivamente à poesia, que lhe rendeu dois títulos honoris causa, o Prêmio Médicis francês de 1988 e, em 1977, os prêmios Príncipe de Asturias de Las Letras e o Reina Sofia de poesia.



